sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O dia em que fomos salvos pelo talhante e escoltados pela polícia em Bogotá

 


Julgo não estar errada ao afirmar que é consenso comum que a América Latina não é o lugar mais amigável para mulheres que viajam sozinhas. 


E por esse motivo, uma das coisas de que me encontro privada nesta viagem é de poder fazer couchsurfing, sendo eu precisamente uma mulher que viaja sozinha. Por isso decidi aproveitar a companhia do meu novo amigo austríaco Thomas, que conheci no Equador,  para tentar encontrar um anfitrião e assim juntos em segurança estarmos com locais. 


O que se revelou uma decisão desastrosa. 


O Thomas encontrou um anfitrião com quem combinámos encontrar-nos pela hora de almoço. By the way, supostamente seria alguém da comunidade LGBT, o que de alguma forma também nos tranquilizou. Uma vez chegados ao local combinado, ficámos em frente a um talho enquanto esperávamos pelo nosso anfitrião, naquilo que percebemos ser um bairro com um aspecto extremamente duvidoso. 


Claro que não passámos despercebidos E percebemos imediatamente que estávamos a ser observados. Dois miúdos brancos, de aspecto acidental, mochila às costas. O alvo perfeito. De repente, tudo escalou muito depressa. O talhante disse-nos que devíamos entrar e esperar dentro do talho pois íamos ser roubados. Já estavam de olho em nós e especialmente nas nossas malas. Passados nem cinco minutos, chega um polícia de mota que me chama para sair do talho. Já nos tinham avisado que aqui a polícia também não é de confiar. Por momentos achei que me estava a acusar de alguma coisa e não a tentar ajudar-me. Entretanto percebi que se tratava exatamente do oposto. Perguntou-nos o que estávamos ali a fazer e avisou-nos mais uma vez que íamos ser roubados. Ainda tentou ligar ao nosso anfitrião mas insistiu que não devíamos esperar por ele nem mais 5 minutos. Avisou-nos de que devíamos seguir atrás dele pois iria escoltar-nos em segurança para uma rua mais segura. Por esta altura, eu e o Thomas estávamos completamente perdidos, eu confusa já tremia, de braço ao peito do acidente na moto 4, sem perceber muito bem como é que esta situação tinha escalado tão rapidamente. Tivemos sorte. Fomos ajudados pelo talhante, pelo polícia, e por outros locais que falaram connosco e nos tentaram alertar para a zona onde nos encontrávamos. E assim somámos mais uma história de sobrevivência às nossas aventuras pela América Latina. 


Desenganem-se: isto não é mesmo para meninos.


 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O dia em que quase morri num acidente de mota no Equador

 

Ontem cheguei a um hostel e um dos planos para a tarde era um tour de moto quatro. Algo dentro de mim me dizia que não de via ir, mas ainda assim pensei que não se iria passar nada e fui na mesma.


 Estamos numa zona num vale completamente rodeado de montanhas. Portanto à medida que íamos subindo, vários abismos se abriam à nossa direita. Em certas partes do caminho, via que havia abatimentos de terra que provocavam buracos na estrada e que se a roda tocasse num desses buracos, resvalávamos abismo abaixo. Pedi ao condutor que tivesse atenção a estes buracos pois eram bastante perigosos. Nem de propósito, uns metros mais à frente um destes buracos abre-se na estrada fazendo com que ele perdesse o controle da moto e caíssemos para o leito do rio. Num primeiro momento a moto parece que vai imobilizar-se, o que não aconteceu. Entretanto a mota capotou para cima de nós, ele ficou preso debaixo da mota e eu com as pernas também lá presas. O assustador foi que a mota balançava ameaçando a todo momento desfazer a minha cara. Eu não consegui libertar-me e só gritava com ele implorando em pânico para que por favor não se mexesse porque senão a mota ia me destruir a cara. Não sei se estão bem a perceber, mas estamos a falar de um peso entre 200 a 300 quilos a balançar sobre a minha cabeça. Entretanto naquilo que pareceu ser uma eternidade o condutor de outra mota vem e segundo ele puxou-me debaixo da mota, o que sinceramente com o trauma do momento, nem sequer me lembro de ter acontecido. Na minha cabeça fui eu que sai de lá sozinha. Claro que com a adrenalina não é possível de perceber logo se há alguma com coisa partida. Entretanto subi a encosta do rio e fui levar a minha mão direita inchada para dentro de água pois parecia estar partida. Uma hora depois passou um carro com quem apanhei boleia para ir ao hospital fazer um raio X. E nesse momento já só procurava voos de regresso a casa - o instinto de sobrevivência só me fazia querer voar daqui para fora. Já tinha acontecido exatamente o mesmo quando parti o dedo da mão esquerda a andar de skate no Vietname. A verdade é que depois tomas um dos analgésicos e quando soube que não estava a partida tudo dentro de mim ficou mais calmo. E pude finalmente chorar de alívio quando percebi que ontem todos os meus guias e todos os astros se alinharam para que eu sobrevivesse, apesar de sentir que vi a morte de frente naquilo que foi provavelmente o mais assustador acidente de toda a minha vida. 


E aprendi a minha lição: nunca mas nunca mais ignorar a minha intuição. Porra, estou viva. E agradecida.