quinta-feira, 26 de dezembro de 2019




Primeiras horas em Ho Chi Minh City? O verdadeiro caos. Mais de duas horas para passar os serviços de imigração, tão ou mais cansativo que o voo de quase cinco horas que me trouxe até cá. Vencida a burocracia, hora de apanhar uma scooter rumo ao destino. A minha integridade física é ameaçada vezes sem conta nesta cidade tão conhecida pelo seu (péssimo) trânsito mundialmente famoso. Ninguém obedece a quaisquer regras, é comum conduzir motas em contra mão, nos passeios, no meio dos transeuntes - literalmente vale tudo. Sempre que atravesso uma estrada no meio desta bizarra anarquia, lembro-me do famoso be like water, my friend do Bruce Lee. É preciso fluir. Aqui, todos parecemos peixes neste estranho mar de gente, quase como se não houvesse espaço para todos.

Para os meus primeiros 4 dias na cidade, escolhi um couchsurfing em detrimento de mais hosteis, com as suas repetitivas playlists de música comercial que já não suporto. Mas estava longe de imaginar que ia parar a uma comuna. Já não visitava um sítio destes desde 2014, quando estive numa passagem de ano numa casa de ocupas, ao miradouro da Senhora do Monte, no meu saudoso bairro da Graça. Para quem o conceito possa ser estranho, não passa de um conjunto de pessoas que se juntam num espaço, por vezes cedido, mas muitas vezes ilegal, e fazem dele a sua casa. Quando cheguei, à minha espera tinha vários russos, alguns ingleses, um brasileiro, uma indonésia e um peculiar e inteligente marinheiro de Singapura. Trocámos as habituais cervejas por chás, e madrugada dentro trocámos também impressões sobre economia, história, política, sociedade. Apesar do lugar algo caótico - não esquecer que se trata de uma comuna - senti que tinha tomado a decisão acertada em manter-me longe de hosteis desta vez. Lá acabei por perceber que estou numa residência de professores de inglês que ao mesmo tempo funciona como uma bike shop. São voluntários a residir na casa de uma família vietnamita, ensinam inglês às crianças no piso intermédio e gerem a sua própria oficina de motas no rés do chão, as quais muitas vezes constroem do zero, com as próprias mãos. Max, o brasileiro, diz-me ter chegado há 4 meses atrás com o intuito de passar uma semana. Mas nunca mais foi embora.

Sinto uma estranha familiaridade no meio destes desconhecidos. Todos eles são estranhos e aventureiros à sua maneira, e eu gosto de me imaginar e sentir assim também, estranha e aventureira.
E adoro dessa sensação.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Indonésia 360



Kuta, Seminyak, Flores, Komodo, Lombok, Gili, Nusa Penida, Ubud, Uluwatu, Canggu.

Que jornada intensa que foi este mês de Indonésia! Quando saí de Portugal, foi provavelmente o país sobre o qual recebi mais conselhos - especialmente sobre a tão famosa Bali, que sempre me soou a terra prometida por habitar os sonhos de tanta gente em terras lusas. Felizmente, há mais Indonésia para além de Bali, e é difícil tecer uma opinião estruturada e isenta sobre o país. Sobre Bali, muitos me disseram que era a minha cara, que quando cá chegasse não ia querer ir embora, que era melhor deixá-la para o final. Talvez o meu eu de há uns meses atrás tivesse concordado. Mas dei por mim a apreciar mais a tranquilidade das estradas nas Flores, a inóspita Komodo, o dolce fare niente exigido por Nusa Penida, e até o silêncio meditativo da minha primeira passagem por um Ashram em Ubud.

A diversidade cultural, de costumes e de paisagens muda quase drasticamente conforme a ilha onde estejamos. Lembrarei sempre a Indonésia como o país onde passei quatro dias a bordo de um barco, várias horas ao largo de um vulcão ativo, onde aprofundei a minha prática de meditação, onde viajei com pessoas que me desafiaram, onde conheci o dragão de Komodo, e onde vi finais de tarde onde quase podia jurar que os barcos pendiam no ar, de tão inexistente que era a linha que normalmente divide o céu e o mar. Conheci brasileiros que me relembraram o porquê de amar tanto o Brasil, holandesas que me fizeram ter saudades minhas quando ainda não tinha 20 anos, e percebi que precisava de voltar a viajar sozinha, já que passei todo o tempo rodeada de outros viajantes. E senti falta de me ouvir a mim mesma, só a mim e às minhas deambulações. Engraçado recordar que no início temi esta premente solidão que antevia numa viagem só minha. E agora dou por mim a desejar mais momentos meus, de olhar para dentro e ouvir com atenção o que é que afinal quero da estrada que escolho percorrer dia após dia.

A Indonésia veste-se sem dúvida de uma espiritualidade especial, especialmente se nos predispomos a ouvir para além do imenso apelo comercial que nos é feito em cada esquina - seja para táxis, roupas, massagens ou tours. Para tudo há um preço, e centenas de vozes que rezam a mesma oferta numa ladainha sem fim. Mas nos lugares onde esse rumor não chega, há espaço para mais, para abrir os braços com calma e respirar de peito aberto este país tão peculiar.





quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Dharma


Cheguei ao Anand Ashram Ubud num dia chuvoso, coisa rara até então na minha viagem. Efeito placebo ou não, sinto uma energia especial neste lugar, e sinto que me quero emergir nela tanto quanto as fronteiras da minha mente permitirem. Li sobre o Dharma mal aqui cheguei - fazer a coisa certa na altura certa. E no meu quarto, a mensagem não podia ser mais apropriada à ocasião: self-transformation is only possible if you recognize what are the things in you that need to be transformed, and then work on it (palavras de Swami Anand Krishna, o guru responsável pelo Ashram). Totalmente adequado. E porquê? Uma hora antes de aqui chegar, a minha companheira de viagem que decidiu juntar-se a mim neste retiro de yoga confrontou-me. Que o meu desapego e dificuldade em definir planos concretos para os dias depois do retiro a incomodavam, que não se sentia confortável com a minha autonomia para ela pouco normal. Na verdade, não me disse nada que eu já não soubesse. Nem sempre tive uma rede de apoio em alturas críticas. Quando mais precisei, nem sempre houve alguém por perto - e isso inevitavelmente deixa marcas. Portanto, sempre fui confrontada com o facto de ser demasiado autónoma na minha maneira de estar. Fosse por chefes no meu trabalho, pelas minhas amigas, ou em relações passadas. Não uma, não duas, mas várias vezes ao longo da minha vida adulta. Sei que sou assim e sei que não é fácil mudar. Mas não é impossível. E acredito que saber a raiz do problema já pode ser um excelente ponto de partida para o resolver. Foram muitas as vezes em que dependi apenas e só de mim mesma. Vezes de mais. E sinto que isso fez crescer em mim uma força bruta que por vezes soa estranha a quem teve percursos menos exigentes. Passo por rude, arrogante, indiferente. Quando na verdade estou a seguir velhos mecanismos de sobrevivência que me fizeram chegar até aqui. 
Não acho contudo que isso me sirva de desculpa para continuar a agir dessa forma. Sou grata por ter sido confrontada ao longo dos anos pela minha liberdade gritante aos olhos dos outros, e sei agora que esse é um dos aspetos sobre os quais me vou debruçar nos próximos dias que aqui vou passar. 

E a quem teve a coragem de me enfrentar para me apontar o dedo e reclamar a minha atenção, só posso agradecer, pois sem dificuldades não há evolução. E ninguém quer ser o mesmo para sempre, verdade?


Namaste