Primeiras horas em Ho Chi Minh City? O verdadeiro caos. Mais de duas horas para passar os serviços de imigração, tão ou mais cansativo que o voo de quase cinco horas que me trouxe até cá. Vencida a burocracia, hora de apanhar uma scooter rumo ao destino. A minha integridade física é ameaçada vezes sem conta nesta cidade tão conhecida pelo seu (péssimo) trânsito mundialmente famoso. Ninguém obedece a quaisquer regras, é comum conduzir motas em contra mão, nos passeios, no meio dos transeuntes - literalmente vale tudo. Sempre que atravesso uma estrada no meio desta bizarra anarquia, lembro-me do famoso be like water, my friend do Bruce Lee. É preciso fluir. Aqui, todos parecemos peixes neste estranho mar de gente, quase como se não houvesse espaço para todos.
Para os meus primeiros 4 dias na cidade, escolhi um couchsurfing em detrimento de mais hosteis, com as suas repetitivas playlists de música comercial que já não suporto. Mas estava longe de imaginar que ia parar a uma comuna. Já não visitava um sítio destes desde 2014, quando estive numa passagem de ano numa casa de ocupas, ao miradouro da Senhora do Monte, no meu saudoso bairro da Graça. Para quem o conceito possa ser estranho, não passa de um conjunto de pessoas que se juntam num espaço, por vezes cedido, mas muitas vezes ilegal, e fazem dele a sua casa. Quando cheguei, à minha espera tinha vários russos, alguns ingleses, um brasileiro, uma indonésia e um peculiar e inteligente marinheiro de Singapura. Trocámos as habituais cervejas por chás, e madrugada dentro trocámos também impressões sobre economia, história, política, sociedade. Apesar do lugar algo caótico - não esquecer que se trata de uma comuna - senti que tinha tomado a decisão acertada em manter-me longe de hosteis desta vez. Lá acabei por perceber que estou numa residência de professores de inglês que ao mesmo tempo funciona como uma bike shop. São voluntários a residir na casa de uma família vietnamita, ensinam inglês às crianças no piso intermédio e gerem a sua própria oficina de motas no rés do chão, as quais muitas vezes constroem do zero, com as próprias mãos. Max, o brasileiro, diz-me ter chegado há 4 meses atrás com o intuito de passar uma semana. Mas nunca mais foi embora.
Sinto uma estranha familiaridade no meio destes desconhecidos. Todos eles são estranhos e aventureiros à sua maneira, e eu gosto de me imaginar e sentir assim também, estranha e aventureira.
E adoro dessa sensação.


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