quinta-feira, 30 de janeiro de 2020




O Cambodja  tem uma das mais jovens populações do mundo. Não é frequente encontrar idosos pelas ruas, rasto do genocídio perpetrado por Pol Pot e pelo seu Khmer Rouge nos anos 70. Em apenas 3 anos, 1 em cada 4 habitantes do país foi assassinado. E com métodos atrozes, onde o uso de balas era considerado um desperdício de meios. O genocídio foi levado a cabo à base de machadadas, trabalhos forçados que conduziam à morte por exaustão, espancamentos com bambu, e torturas inimagináveis que incluíam a ingestão de fezes. A comida era de tal forma escassa que chegava a ser possível contar os grãos de arroz nas malgas. 

A dignidade humana reduzida a pó. E tudo porque uma das grandes máximas do regime advogava que era melhor matar um inocente por engano, do que deixar escapar um inimigo. 

Fui a Phnom Penh de propósito para visitar dois dos lugares que marcam esta história quase impossível de acreditar de tão terrível, por eles passou o maior número de vítimas do regime. A prisão de Tuol Sleng, e os Killing Fields, onde morreram cerca de 17.000 pessoas. Neste último, há uma árvore em particular que nos abala todos os sentidos - veio a concluir-se ser aquela onde apenas as crianças eram espancadas. Sim, as crianças. Não escapava ninguém. 

Não há como ficar indiferente. As visitas são conduzidas com um guia áudio, e o silêncio é magistral. A narrativa que se escuta enquanto decorre a visita foi concebida com um tacto irrepreensível, e um apelo constante a que se divulgue o que aqui se passou. Para memória futura, para que a humanidade não volte a cometer os mesmos erros do passado. 

Saí de Phnom Penh com um aperto grande no peito. Vi várias pessoas lavadas em lágrimas em ambos os sítios. É difícil de imaginar o que estas pessoas terão sentido quando se viram despojadas de todos e quaisquer bens pessoais, forçadas a caminhar quilómetros sem fim pelo país fora, forçadas a trabalhar 14 horas por dia sob temperaturas tórridas, separadas da família e de tudo o que lhes era familiar. Dói pensar nisto, dói pensar que ainda há toda uma geração de pessoas órfãs e traumatizadas pelo infame Khmer Rouge. 

Que a memória deste terror não se apague, pois só assim podemos almejar - ainda que remotamente -  a que não se repita.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020





Silêncio. O silêncio das ruas foi a primeira coisa que estranhei no Cambodja quando aterrei em Siem Reap. Ao contrário do que acontece em quase todos os países por onde passei, aqui as pessoas não apitam constantemente. Apitar enquanto se conduz acho que passou a ser inerente à condução por estes lados, tão natural como travar ou acelerar. Faz parte. E a poluição sonora, uma constante. 

Mas não aqui. Aqui reina um civismo que não se encontra noutros lugares.

Os preços estão ligeiramente acima do vizinho Vietnam devido ao uso do dólar americano. Já me habituei a ter duas moedas na carteira, o Riel cambodiano e o dólar americano, mas no início é no mínimo confuso. Tirando a questão dos preços que obviamente não me fascinou, o Cambodja tem sido até agora dos países mais apaixonantes que visitei. Cada lugar tem história, natureza ou algum encanto natural que me faz sentir vontade de explorar ainda mais. A imponência dos templos em Angkor Wat, o delicodoce ritmo das ilhas de Koh Rong e Sanloem, Kampot entregue a mergulhos no rio e subidas às montanhas, Phnom Penh e a fatídica história do genocídio, e a intocada zona rural de Ratanakiri. As ilhas foram em 4 meses o primeiro lugar onde constantemente adiei a minha partida. Não queria sair de lá. As praias de sonho, a vibe hippie, todos os dias o incrível nascer do sol mesmo à frente da minha tenda. Acampar na praia é das melhores coisas desta vida e poder fazê-lo num lugar tão incrível como este é um privilégio, devo reconhecer. 

Não há como me cansar desta vida.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020


Vietnam. Provavelmente fazemos a imediata associação à palavra guerra quando pensamos no país. Um conflito que durou tantos anos e que apesar de tudo não foi assim há tanto tempo quanto isso. Conheço poucos países que tenham combatido o invasor com tanta resiliência, presença de espírito, e um ânimo combativo impossível de quebrar. Muitos dos danos da guerra vivem ainda nas rugas dos mais velhos. Em cada esquina das grandes cidades, em cada simples casa no campo. Não é preciso prestar muita atenção para perceber o quanto de luta pautou estas vidas. Saí deste país com uma admiração extrema pela luta com que o unificaram e de os ver envergar com tanto orgulho o resultado positivo da sua tenacidade indefensável. 

É hoje um país que cresce hoje a olhos vistos, muito graças ao capital chinês. O caos das cidades em constante desenvolvimento contrasta com a inevitável melancolia que se respira em viajando pelos canpos e montanhas do interior. As ilhas recortadas de azul e verde, e as réstias de sol de um verão que teima em não acabar. 

O país oferece um leque tão vasto de opções que é impossível percorrer o tanto que vale a pena visitar. Mas saí de lá com a certeza de que vou voltar para explorar o Norte do país de uma ponta à outra, plano que tive que adiar devido à fratura que não me deixa conduzir motas. 

Cảm ơn bạn, Vietnam!