O Cambodja tem uma das mais jovens populações do mundo. Não é frequente encontrar idosos pelas ruas, rasto do genocídio perpetrado por Pol Pot e pelo seu Khmer Rouge nos anos 70. Em apenas 3 anos, 1 em cada 4 habitantes do país foi assassinado. E com métodos atrozes, onde o uso de balas era considerado um desperdício de meios. O genocídio foi levado a cabo à base de machadadas, trabalhos forçados que conduziam à morte por exaustão, espancamentos com bambu, e torturas inimagináveis que incluíam a ingestão de fezes. A comida era de tal forma escassa que chegava a ser possível contar os grãos de arroz nas malgas.
A dignidade humana reduzida a pó. E tudo porque uma das grandes máximas do regime advogava que era melhor matar um inocente por engano, do que deixar escapar um inimigo.
Fui a Phnom Penh de propósito para visitar dois dos lugares que marcam esta história quase impossível de acreditar de tão terrível, por eles passou o maior número de vítimas do regime. A prisão de Tuol Sleng, e os Killing Fields, onde morreram cerca de 17.000 pessoas. Neste último, há uma árvore em particular que nos abala todos os sentidos - veio a concluir-se ser aquela onde apenas as crianças eram espancadas. Sim, as crianças. Não escapava ninguém.
Não há como ficar indiferente. As visitas são conduzidas com um guia áudio, e o silêncio é magistral. A narrativa que se escuta enquanto decorre a visita foi concebida com um tacto irrepreensível, e um apelo constante a que se divulgue o que aqui se passou. Para memória futura, para que a humanidade não volte a cometer os mesmos erros do passado.
Saí de Phnom Penh com um aperto grande no peito. Vi várias pessoas lavadas em lágrimas em ambos os sítios. É difícil de imaginar o que estas pessoas terão sentido quando se viram despojadas de todos e quaisquer bens pessoais, forçadas a caminhar quilómetros sem fim pelo país fora, forçadas a trabalhar 14 horas por dia sob temperaturas tórridas, separadas da família e de tudo o que lhes era familiar. Dói pensar nisto, dói pensar que ainda há toda uma geração de pessoas órfãs e traumatizadas pelo infame Khmer Rouge.
Que a memória deste terror não se apague, pois só assim podemos almejar - ainda que remotamente - a que não se repita.





