terça-feira, 25 de fevereiro de 2020


Tinha 21 anos acabados de fazer quando a  mãe nos deixou - o meu irmão a meses de fazer 18. Nesses anos negros, a ansiedade devorou-me de dentro para fora. Perdi boa parte do cabelo (até hoje nunca recuperado), chegava a beber 5 litros de água por dia pois tinha uma sede que nunca passava, as dores nas costas uma constante, e os pulmões, que nunca conseguia encher de ar. A ansiedade é fodida. À quinta feira já começava o meu pavor pelos fins de semana, tremia de me imaginar sozinha, sem saber o que fazer para preencher o imenso vazio que ela nos tinha deixado. Ansiava por ter pessoas à minha volta e sempre algo planeado, uma angústia permanente. Ficar a sós e em silêncio com o meu luto era doloroso de mais. Uma profunda falta de norte que hoje me parece difícil de acreditar ter conseguido ultrapassar. Mas ultrapassei.

Ter vindo fazer uma viagem desta dimensão sozinha é como que sambar na cara da ansiedade. Aquele beijinho no ombro, estimo bem que te f****. Mas mesmo em viagem, a garganta arde-me e o coração palpita quando antecipo certas coisas. Às vezes antes de mudar para um sítio novo, lá vem o ardor na garganta. Como sempre, passa, mas nem sempre é fácil. São os dormitórios partilhados com pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Por vezes apenas homens e nem sempre sóbrios quando regressam dos bares. Os problemas da barriga, aos quais perdi a conta de tantos que já foram. São as pernas pejadas de meses de mordidas de insetos. São as incompreensíveis casas de banho asiáticas, onde penso sempre "Quando é que vou apanhar a doença X ou Y". É a comida que para andar dentro do orçamento, vai oscilando entre arroz e noodles. 

Hoje finalmente tive o dia inteiro a sós, tempo de introspecção e auto-análise. Onde antes temia o silêncio, hoje procuro-o de minha livre iniciativa. E um aniversário grande à porta dá que pensar. É terça feira de carnaval e não estou no Brasil nem em Torres Vedras, como em todos os outros anos. Estou ainda no sítio onde há momentos me sentei para meditar, para me sentir e me acalmar. Não deixo de me surpreender com as coisas boas que a meditação e o yoga me trazem, e com o facto de apesar de nem sempre ter compreendido estas práticas (a aprendizagem é uma constante), nelas ter insistido e trazê-las sempre comigo.

A quem comigo partilhou estes ensinamentos e à vida, que apesar de por vezes turbulenta, é ainda assim maravilhosa, me curvo num imenso e sentido Namastê.

sábado, 22 de fevereiro de 2020


Falámos ao telefone noutro dia, e contava-lhe o sítio onde estou a viver agora. A minha interlocutora ficou manifestamente chocada com as condições em que me encontro. Para os nossos padrões ocidentais, não se pode sequer remotamente chamar de casa. Existem umas paredes de pé onde vive a família que me acolhe, um espécie de casa de banho onde tomamos banho com baldes de água fria, a cozinha é pouco mais do que um lume no chão que se acende todos os dias e duas prateleiras acossadas a uma parede. E o meu quarto? Bom, o meu quarto (que tenho a sorte de partilhar com uma artista francesa que adoro) é uma pequena cabana dependurada sobre o rio Mekong, as paredes são apenas lençóis e o chão é feito de bambu. As noites são frias e o isolamento acústico é - como se pode facilmente imaginar - inexistente. Não existe área de refeições. Sentamos-nos todos no chão, fazemos bolinhas de sticky rice com as mãos e partilhamos sopas feitas com ingredientes que raramente sei o que são. Limito-me a apreciar o que partilham comigo, pois foi a isso que me propus ao vir aqui. E isso estende-se claro está à simplicidade do que é a vida destas pessoas.

Lembro-me muitas vezes dos meus avós quando vejo o lume a arder, das histórias que me contavam em que também era assim que cozinhavam no antigamente. Penso em todos os (muitos) confortos que tenho em casa e no significado que tem privar-me de todas as comodidades que dou por garantidas. Vistas bem as coisas, não me posso queixar. Não me falta rigorosamente nada.

Nestes dias em Luang Prabang dou por mim com excesso de tempo livre para análises existenciais. Penso no que almejo para o futuro e a dada altura senti alguma angústia quanto à minha inexistência de novos sonhos. Pensei que não tinha mais nenhum sonho guardado por atingir - este de viajar era o maior de todos, e como está a ser tão maravilhoso concretizá-lo! Mas rapidamente me lembrei que me despedi, não tenho trabalho e preciso de sustento. Mas não é de um trabalho que preciso, e sim de uma paixão. Dias inteiros em escritórios que cumprem apenas e só o papel de me pagar as contas, os impostos, os seguros? Já dei para esse peditório.

Tornou-se por isso claro e evidente de mais que do que preciso é de uma paixão, de preferência daquelas que pagam a água, a luz e o gás.

Paixões, alguém com recomendações?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Been there, Don Det




Hoje enquanto atravessava o Mekong numa das muitas pequenas embarcações que abundam rio fora, tive que repetir para comigo mesma: isto é real, está mesmo a acontecer. O cenário era tão idílico que precisei de parar por uns instantes para o digerir. Andando sempre de um lado para o outro, quase todos os dias se vêm coisas incríveis. E às vezes esquecemos-nos de parar para apreciar o que nos rodeia. Don Det é um desses sítios que nos sugam, onde vamos ficando e quase nos esquecemos que a dada altura será necessário seguir viagem.

Apesar de ser o único país do sudeste asiático que não tem fronteira marítima, o Laos é ainda assim casa de um lugar mágico chamado 4.000 Islands. Ilhas incontáveis, povoações que de tão autênticas e intocadas quase parecem pequenas tribos, cascatas de fazer suster a respiração. Para além da beleza mística deste sítio, Don Det é simultaneamente um lugar de extremos. É perfeito para nos entregarmos ao dolce fare niente com os hippies que deambulam pela ilha, rebolando de esplanada em esplanada em busca da próxima iguaria gastronómica ou de mais um dos inacreditáveis pôr do sol que dão nome a este lugar. Mas Don Det também é vocacionado para as atividades outdoor. Aqui passei várias horas de kayak rio abaixo, outras tantas de bicicleta de uma ilha para a outra, desci rápidos sem saber se tinha coragem (e aptidão) para o fazer, e escalei sítios inóspitos em busca de algumas das muitas cascatas que por aqui existem.

Vi crianças brincarem despreocupadas nas ilhotas que decoram o rio, enquanto as respetivas mães colhiam bivalves nas margens do mesmo. E miúdos com não mais do que dez anos de idade tirarem peixe do rio como se de uma brincadeira se tratasse. Ver a vida local acontecer desta maneira é para mim das melhores coisas de viajar. Sem desprimor de tudo o que se pode fazer em viagem, o mais puro dos prazeres reside nesta simplicidade de observar a vida a acontecer num ritmo que não é o meu, numa realidade incrivelmente distante da minha.

O Laos não se podia ter apresentado com um melhor postal do que este, uma espécie de ginásio, mas na natureza. Moída e cansada me confesso, mas ansiosa por quantos mais estrangeirismos couberem na minha já pequena carteira: hyking, cycling, kayaking, rafting and so on. Não me levem a mal o abandono momentâneo do português, mas é que ao fim de uns meses, até os meus sonhos já são em inglês. Go figure!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020


Mal cheguei ainda de noite à poeirenta Banlung, Ratanakiri, senti que estava finalmente no caminho certo. Estradas de um vermelho vivo ainda por alcatroar, pontilhadas de humildes construções de madeira e crianças sorridentes. A minha última paragem no norte do Cambodja, antes de atravessar a fronteira para o vizinho Laos. Apesar de estar de volta à estrada sem companheiros de viagem, a sede pelo desconhecido encheu-me de confiança e vontade de me embrenhar na vida desta povoação. Eram seis da manhã quando sozinha me aventurei pelo mercado local. Numa área predominantemente rural, pude apreciar de perto e com caráter de exclusividade (não havia um único viajante na zona àquela hora) o  desenrolar das trocas comerciais. Vindos das aldeias circundantes desta pequena vila na província, os agricultores vendiam as suas frutas, legumes e carnes. Um deleite de cores e cheiros, talvez capaz de ofender narizes mais sensíveis. A sensação é a de estar perante um livro aberto cuja história pede para ser ouvida, mas não há narrador. Absorvo eu toda a narrativa com os meus próprios sentidos, o livro desenrola-se em pura realidade.

Esperei até as 8h da manhã para alugar uma mota, e por fim lá percorri os 5kms que me separavam da casa onde passei os restantes dias. Não podia imaginar que seria das minhas experiências favoritas até agora. Fui recebida em casa do Vuthy como se fosse um membro da família de visita. Fiz as refeições com eles, levei os miúdos à escola na mota, ajudei a trabalhar no terreno da família, inclusive fiz duas novas tatuagens com o mesmo tatuador do Vuthy. À noite jogávamos às cartas ou ficávamos só à conversa, consoante ditasse o cansaço nesse dia. Fiquei deveras impressionada com a autonomia dos miúdos. Com apenas 5 e 9 anos, estes pequenos faziam de tudo sem lhes ser pedido ou tampouco ordenado: lavavam os dentes, faziam os trabalhos de casa, vestiam-se sozinhos para ir para a escola, comiam os vegetais das refeições sem espernear. Nunca os vi fazer uma única birra nos dias que com eles passei.

Despedi-me do Cambodja e desta família com alguma nostalgia. Fui recebida de braços abertos por onde fui passando e sinto que era capaz de ficar os próximos anos a explorar cada recanto deste país, de tanto que me conquistou.