Isto de viajar sozinha tem muito que se lhe diga. E logo eu, que apesar de adorar as minhas horas de silêncio e quietude, gosto mesmo é de me ver rodeada de amigos e jogar conversa fora. Não gosto nada de planear, chego aos sítios e vejo como me sinto. E o que acontece muitas das vezes é que chego e fico meio à toa, como que feita refém da minha própria aversão ao planeamento. Não sei para onde me vire nem o que faça. E apesar das mil e uma maneiras de poder conhecer e estar com outras pessoas, por vezes privilegio o poder abandonar-me sozinha aos meus pensamentos, sem as conversas que se vão repetindo ao fim de algum tempo.
Há quanto tempo andas a viajar? Ah, sério?, que giro. No meu país é assim, na minha língua é assado. Pois é, quando conhecer pessoas se torna parte da rotina, é desafiante contornar os tópicos do costume, as perguntas de estrada que todos os viajantes acabam por vestir e despir como se da bagagem fizessem parte.
Hoje depois de vários quilómetros percorridos numa scooter estrada fora, sentei-me pela primeira vez num areal e tentei ler um livro italiano de viagens que me tem dado uma luta do caraças - já não lia italiano há tanto tempo. Os filipinos inundavam o areal inteiro com as suas gargalhadas vindas do mar, num feliz desapego dentro de água enquanto o céu ameaça a todo o momento desabar em chuva. É época de chuvas e ao invés de céu solarengo, há uma enorme parede cinzenta que vai deixando cair umas gotas aqui e ali.
E nesse momento, senti-me sozinha.
Não que esteja triste, não que haja algo de errado comigo. Simplesmente habituei-me a que por vezes isto vai acontecer, e vou sentir-me simplesmente assim, s-o-z-i-n-h-a. E enquanto matutava para mim mesma no que isto significa, o que ao mesmo tempo não precisa de ser nem é sinónimo de tristeza, oiço ao longe os acordes de uma música que bem conheço. Não a ouvia há muito tempo, mas foi a música que escolhi para tocar na despedida da minha mãe. Da minha querida mãe. E logo pousei o meu livro e me deixei ficar, sentido a lágrima de emoção que misturei à chuva, e a mão da minha mãe, que imaginei enxugar-me o rosto, em me dizendo que ali estava comigo. Que viajava comigo, que tomava conta de mim.
E que bem que me soube a solidão daqueles minutos, pois que se os tivesse passado a conversar, não teria dado pela música, nem pela breve passagem da memória da minha mãe, como que me dizendo que nunca estou de verdade sozinha.
Muito amor, minha mãe, e muitas saudades tuas hoje e sempre. Esta viagem é minha e tua.











