quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O dia em que ela apareceu em Moalboal



Isto de viajar sozinha tem muito que se lhe diga. E logo eu, que apesar de adorar as minhas horas de silêncio e quietude, gosto mesmo é de me ver rodeada de amigos e jogar conversa fora. Não gosto nada de planear, chego aos sítios e vejo como me sinto. E o que acontece muitas das vezes é que chego e fico meio à toa, como que feita refém da minha própria aversão ao planeamento. Não sei para onde me vire nem o que faça. E apesar das mil e uma maneiras de poder conhecer e estar com outras pessoas, por vezes privilegio o poder abandonar-me sozinha aos meus pensamentos, sem as conversas que se vão repetindo ao fim de algum tempo. 

Há quanto tempo andas a viajar? Ah, sério?, que giro. No meu país é assim, na minha língua é assado. Pois é, quando conhecer pessoas se torna parte da rotina, é desafiante contornar os tópicos do costume, as perguntas de estrada que todos os viajantes acabam por vestir e despir como se da bagagem fizessem parte.


Hoje depois de vários quilómetros percorridos numa scooter estrada fora, sentei-me pela primeira vez num areal e tentei ler um livro italiano de viagens que me tem dado uma luta do caraças - já não lia italiano há tanto tempo. Os filipinos inundavam o areal inteiro com as suas gargalhadas vindas do mar, num feliz desapego dentro de água enquanto o céu ameaça a todo o momento desabar em chuva. É época de chuvas e ao invés de céu solarengo, há uma enorme parede cinzenta que vai deixando cair umas gotas aqui e ali.

E nesse momento, senti-me sozinha. 

Não que esteja triste, não que haja algo de errado comigo. Simplesmente habituei-me a que por vezes isto vai acontecer, e vou sentir-me simplesmente assim, s-o-z-i-n-h-a. E enquanto matutava para mim mesma no que isto significa, o que ao mesmo tempo não precisa de ser nem é sinónimo de tristeza, oiço ao longe os acordes de uma música que bem conheço. Não a ouvia há muito tempo, mas foi a música que escolhi para tocar na despedida da minha mãe. Da minha querida mãe. E logo pousei o meu livro e me deixei ficar, sentido a lágrima de emoção que misturei à chuva, e a mão da minha mãe, que imaginei enxugar-me o rosto, em me dizendo que ali estava comigo. Que viajava comigo, que tomava conta de mim. 




E que bem que me soube a solidão daqueles minutos, pois que se os tivesse passado a conversar, não teria dado pela música, nem pela breve passagem da memória da minha mãe, como que me dizendo que nunca estou de verdade sozinha.

Muito amor, minha mãe, e muitas saudades tuas hoje e sempre. Esta viagem é minha e tua.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Cebu


Até ontem, tinha andado pela Ásia modernizada. China, Coreia, Japão e suas grandes cidades ou pequenos e organizados centros urbanos. Mas ontem cheguei à Ásia a sério, aquela cujo calor esbofeteia e onde a pobreza nos revolve as entranhas de tão gritante. Aterrei em Cebu, cidade onde por norma se tem um pé no avião e o outro no autocarro ou ferry seguinte. Poucos são os que param para se deixarem engolir nesta amálgama de gentes simples e edifícios decrépitos. Na primeira hora que passei na rua recusei inúmeras ofertas de "ajuda", táxis, transportes, ou simplesmente homens que queriam interagir comigo. E este constante recusar de ajudas iria pautar o resto do meu dia até voltar à casa de hóspedes onde fiquei nessa noite. Chocante sim foi o contato que tive com as primeiras crianças que se meteram comigo. Não lhes daria mais que 4 a 5 anos, mas é difícil dizer pois eram crianças de rua, ou de pais muito pobres, e visivelmente subnutridas. De cócoras e pés descalços, esgravatavam qualquer coisa no chão, e mal me viram estenderam de imediato as pequenas mãos em jeito de prece, pedindo ajuda. Como estes, vi muitos, muitos outros. Crianças, adultos, idosos. Inclusive, ainda jantei com uma dessas meninas de rua, mas para ela ficará uma reflexão escrita noutro dia em que o calor não me tolde o discernimento como agora.

À medida que percorri a cidade, senti que estranhavam a minha presença (talvez demasiado branca), mas foi à noite que percebi o quão sozinha estava nesta cidade enquanto "turista". Com uma amiga espanhola que fiz nessa manhã, decidimos noite dentro ir visitar a Cruz de Magalhães, deixada no séc. XVI pelos nossos respectivos antecessores portugueses e espanhóis. E ali bem perto, o muito sui generis Carbon Market esperava por nós. Diria que fomos talvez a atração principal dessa noite, tal foi a atenção dispensada às duas branquelas que por ali de aventuravam. Ao contrário do que sugeriria a sujidade das ruas e a negritude dos edifícios ao nosso redor, o ar dominava-o antes um refrescante cheiro a frutas e legumes espalhados rua fora. Nunca antes me tinha sentido tão diferente, tão observada. Nessa noite fotografei um local que imediatamente me adicionou no Facebook, onde inclusive me viria a escrever, e passo a citar You mam your deperent of other american, your colour is nature. Passando por americana, não sei se se referiu à naturalidade com que ficámos na brincadeira com ele, ou à palidez que já trago comigo das grandes cidades. 


Ainda ouvimos mais uns quantos "Kiss Kiss" até chegarmos ao Forte de São Pedro, seriam já umas 9h da noite. A inexistência de turistas por estas bandas é de tal ordem que o segurança do forte se prontificou imediatamente a fazer-nos uma pequena visita guiada, mesmo estando o edifício fechado já há várias horas. Acho que ele gostou ainda mais do inusitado daquele momento do que nós, tal foi a quantidade de fotos que a seguir nos pediu que tirássemos com ele.

Para uma cidade ontem passei pouco mais de 30 horas, Cebu marcou-me de várias formas e sei que ainda aqui vou voltar - tanto fisicamente, como por escrito. Agora é hora de desfrutar das próximas 3 horas neste autocarro sobrelotado e sem ar condicionado de onde escrevo, pois o calor aperta e o pensamento já custa a fluir. E outras paisagens  mais verdejantes esperam por mim.



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

I wish I could



Gostava de simplesmente poder pegar no carro e ir às compras num mercado em Damasco, ou comer cerejas no Líbano, ou ir a Meca e comprar um perfume.


As palavras são do Hallel, com quem partilhei casa nestes últimos dias de voluntariado no Japão, a propósito das limitações impostas pelo seu passaporte israelita. Preocupações que nós portugueses, europeus e ocidentais no geral, por norma não temos, posta a facilidade em entrar na maioria dos países. É com visível comoção que me transmite estes inatingíveis desejos, dado que já há coisa de uma hora que a nossa conversa versava sobre o sensível tema do  conflito israelo-árabe. Um assunto pelo qual sempre nutri uma empática atenção, pois que tem tanto de inusitado como de irresolúvel. E infelizmente, a opinião do Hallel é de que provavelmente não estará resolvido no seu tempo útil de vida. 

Não consigo deixar de sentir a dimensão quase poética do sítio e da tarefa que executamos: nessa manhã, foi-nos pedido que deixássemos a descoberto as raízes de duas árvores decepadas, e aí nos encontrávamos nós, munidos de pás e boa vontade, a escavar como se nada mais importasse no mundo. Da mesma maneira que não pude deixar de lhe admirar a abnegação com que me disse ainda assim sentir-se um privilegiado: apesar de tudo, não passava pelas dificuldades que pautam os dias dos seus amigos sírios.


O Hallel é como eu em muitas coisas: apesar dos dez anos que nos separam, já tem o hábito de tentar ver sempre o lado positivo das situações. No caso dele, nasceu num dos mais controversos pontos do planeta, mas ainda assim tem presente que podia ser pior. Pode sempre ser pior - tudo depende da perspectiva com que nos dispomos a olhar as coisas que a vida nos trás. 

Há precisamente um mês atrás dirigi-me à China para uma experiência meio conturbada que me fez valorizar tudo o que deixei em Portugal. E é curioso como o Hallel conseguiu ter em mim o mesmo efeito que um país inteiro: o apreciar a sorte que tive de nascer onde nasci, apesar de todas as dificuldades, dos contratempos e das adversidades. Afinal de contas, até aqui sobrevivemos a todos os nossos piores dias, desde que nascemos até ao exato segundo em que escrevo estas palavras.


E disso há um mundo inteiro de valor a retirar. Basta querer.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Slow Life Japan

Mergulhamos os três no Mar do Japão em genuíno desprezo pela nortada e pelas temperaturas outonais desta tarde premonitória de novembros. Eu, a francesa Mona, o israelita Hallel - que por sinal, mergulha no mar pela primeira vez. A água é tépida para mim, habituada que estou às correntes frias do Atlântico, mas fresca para o Hallel, frequentador assíduo desse caldo quente que é o Mar Morto. E sim, é verdade, até no Japão a nortada me persegue. O Oeste sempre presente. Mas mais do que o vento, e mais do que este clima tão parecido ao nosso, sinto-me imediatamente perto de casa mal os meus pés sentem a rebentação. De alguma forma, esta imensidão de água que literalmente nos liga faz-me sentir mais próxima às minhas raízes portuguesas, quase a 11.000 kms de distância - o mais longe que alguma vez estive de casa. Como se do outro lado do globo pudesse sentir os pés daqueles que amo tocarem esta mesma água, bafejo doce de saudade e de amor neste simples gesto de "tocar o mar" - já dizia o meu amigo Jerôme. Je vais toucher la mer.


Depois de algumas posições de yoga, sento-me na posição de lótus, e não me lembro de alguma vez me ter sentido tão confortável assim sentada nesta postura nem sempre fácil. E assim me deixo ficar, por tempo indeterminado, por mais tempo do que me lembro me ter deixado assim sentada, sentindo o vento, os salpicos de mar, estes pequenos laivos de plenitude. A casa onde vivo agora apresenta-se logo à  entrada: "Slow life Japan". E eu, ansiosa e apressada que sou, nunca pensei que seria capaz de vestir tão bem esta camisola de tempos retalhados em pequenas e delicodoces  doses.


Esta manhã protegemos a plantação de morangos com plástico, colhemos as flores que afetam a plantação de chá, e ainda acabámos de aplicar cimento num dos muros que se está a construir em torno à propriedade.
Fiz pão pela primeira vez, um doce de caqui, (fruta cuja existência desconhecia), e tenho-me reinventando em cozinhados com alimentos e temperos para mim totalmente novos - as compras para a casa são feitas por terceiros, e é preciso transformar os alimentos em refeições com alguma criatividade - muitos deles nunca os tinha visto nem sei bem do que se tratam. Satisfaz-me tanto conseguir dar-lhes a volta, mas agrada-me ainda mais apreciar o agrado com que estes meus novos amigos acolhem os meus cozinhados - que modéstia à parte, me dizem ser deliciosos.

E não é que afinal sabe (tão) bem viver devagar.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

"Don't let China get under your skin"


Tenho pela frente 19 horas de comboio, mais do que o necessário para suprimir a distância que separa a charmosa Shangai da misteriosa Guilin. Sim, poderia ter optado por menos horas de viagem, mas não queria deixar de viver a experiência de dormir a bordo de um comboio e desfrutar da respetiva alimentação à base de noodles preparados com água quente disponível em todas as carruagens. Na verdade, a água quente é omnipresente, há sempre alguém a comer noodles em algum lugar. E já diz a velha máxima, se não podes vencê-los, junta-te a eles. Foi o que fiz por diversas vezes, ao ponto de já comer noodles até ao pequeno almoço.

Partilho a cabine com pessoas que estranham a minha presença, mas talvez ainda mais o facto de ter um livro nas mãos. Um simples livro. Não me lembro de ter visto ninguém com um por estas bandas. Parecem uma memória menor e distante, vítimas inevitáveis desse vício doentio que são os telemóveis. 


Aproxima-se o final da tarde, e é impossível não reparar que tanto a alvorada como o ocaso se vestem quase sempre de uma penumbra como não me lembro de ter visto noutros países. Apologista de metáforas que sou desde que lhes aprendi o sentido, não consigo evitar a associação óbvia. É como se essa penumbra - que mais não será do que apenas e só o smog que dilacera este país de dentro para fora - de alguma forma retratasse o manto invisível com que a orientação comunista reveste este país de norte a sul, de este a oeste. 


Os assuntos proibidos, as gentes como que coibidas de interagirem com estrangeiros, uma ingenuidade quase infantil que sinto ser transversal à população inteira. Pergunto-me várias vezes se a barreira será meramente linguística - dado que poucos falam inglês - ou se se deverá essencialmente a orientações profundamente diferentes daquelas a que estamos habituados no mundo ocidental.


Nunca como na China valorizei tanto a educação que o ensino português me proporcionou. A minha liberdade de pensamento, de discurso, de ação. E também a minha liberdade religiosa, apesar dessa já nada me importar. Sempre os tive como dados adquiridos, mas há algo de bastante castrador em não saber muito bem como fazer uma simples pesquisa no Google, porque este pura e simplesmente não está disponível na complexa web chinesa.
Basta rumar a Oriente para as nossas referências se desfazerem por terra, e no meu caso particular, apreciar mais uma vez aquilo que sei ter em casa à minha espera - e essa valorização é dos maiores prazeres que tiro das viagens, sem qualquer sombra de dúvida. 
É por isso que é tão bom sairmos das nossas bolhas, mesmo que dê trabalho, que seja desafiante, às vezes até doloroso. Sim, a China tratou-me de tal forma que cheguei a questionar as minhas escolhas de olhos marejados. Mas sobrevivi-lhe, pois também é dessa exposição que me desafia que vim à procura. Se para isso não fosse, mais valia ter ficado sentada à secretária a pensar nas próximas férias.







Não sei bem situar quando é que esta viagem se começou a desenhar dentro de mim. Desde pequena, sempre vivi numa urgência de partir, um desejo de explorar que nunca senti satisfeito nas viagens de curta duração que fui fazendo desde que comecei a juntar dinheiro para as fazer - tinha apenas 14 anos. Nunca quis roupas ou CD's ou quaisquer outras pequenas futilidades normais nessa idade. Apenas e só aquele bilhete mágico de avião que me levava para longe, para sítios novos e paisagens com as quais só podia sonhar.

Desta vez, segui uma regra básica para quem quer fazer dos sonhos algo mais do a insónia em que por vezes se transformam, mas desconhece qual o primeiro passo: sem ter qualquer plano delineado, comecei por dizer a toda a gente que me ia despedir e ia para a Ásia só com um bilhete de ida. No início, acho que pouca gente acreditou em mim. E aqui me confesso, eu própria desconfiei de que seria capaz de levar o meu (não) plano avante. Mas a verdade é que esta estratégia básica de verbalizar a minha intenção a meio mundo resultou: o anúncio estava feito e não podia voltar atrás. E tudo o que fiz foi levar as vacinas obrigatórias, comprar um bilhete rumo à China, e encontrar quem me desse casa nesses primeiros dias. Não preparei rigorosamente mais nada.

E não ter um plano implica que tenho vários meses pela frente, o desejo de visitar cerca de 17 países, mas nenhum trajeto delineado. Quem escolhe os meus próximos passos por mim é o Skyscanner. Quase como naquele clichê de quem gira um daqueles globos retro e viaja para o país onde calhar a tocar com a ponta do dedo.
Nunca fui adepta de organização excessiva. Tenho uma maneira espontânea e às vezes meio tonta, como diriam algumas amigas minhas, de fazer acontecer as coisas. E a verdade é que bem ou mal, com mais ou menos sobressaltos, elas vão acontecendo. Mas no que toca a escolher um percurso para esta viagem, percebo agora ao fim de 23 dias de estrada que nunca seria para mim ter um trajeto fechado e rigoroso. Percebo agora que esta minha fluidez é apenas e só a feliz materialização de todas as vezes em que acordei nos últimos 11 anos, e tudo o que desejava era correr para o aeroporto da Portela e comprar um bilhete para o próximo avião que cruzasse o céu de Lisboa. Claro que esta ideia teria muito pouco de romântico se o voo fosse para Madrid ou para o Funchal. Mas não é isso que importa. A verdade é que foram mesmo muitas as vezes em que esse era o desejo maior que em mim morava. E agora posso de peito feito e orgulho transbordante dizer que essa se tornou a minha vida - pelo menos para os próximos tempos. Agora sim, posso finalmente acordar todos os dias e pedir ao Skyscanner que tenha a gentileza de escolher um destino simpático para mim. Literalmente todos os dias. Até agora não me tratou mal. Depois da China, levou-me à Coreia do Sul e por enquanto estou pelo Japão. Até quando? Não faço ideia.

Há vidas melhores que esta? Com certeza que sim, e piores também, não duvido. Mas esta é a minha, a que incubei durante anos, e que agora abraço todos os dias com compromisso e entrega. Porque mesmo sem caminho traçado, é ao improviso que me entrego. 11 anos de escritórios, fatos e gravatas e horários definidos já foram demais, bem demais do que o desejável. 

E só posso desejar que assim dure a minha liberdade.