sexta-feira, 25 de outubro de 2019

I wish I could



Gostava de simplesmente poder pegar no carro e ir às compras num mercado em Damasco, ou comer cerejas no Líbano, ou ir a Meca e comprar um perfume.


As palavras são do Hallel, com quem partilhei casa nestes últimos dias de voluntariado no Japão, a propósito das limitações impostas pelo seu passaporte israelita. Preocupações que nós portugueses, europeus e ocidentais no geral, por norma não temos, posta a facilidade em entrar na maioria dos países. É com visível comoção que me transmite estes inatingíveis desejos, dado que já há coisa de uma hora que a nossa conversa versava sobre o sensível tema do  conflito israelo-árabe. Um assunto pelo qual sempre nutri uma empática atenção, pois que tem tanto de inusitado como de irresolúvel. E infelizmente, a opinião do Hallel é de que provavelmente não estará resolvido no seu tempo útil de vida. 

Não consigo deixar de sentir a dimensão quase poética do sítio e da tarefa que executamos: nessa manhã, foi-nos pedido que deixássemos a descoberto as raízes de duas árvores decepadas, e aí nos encontrávamos nós, munidos de pás e boa vontade, a escavar como se nada mais importasse no mundo. Da mesma maneira que não pude deixar de lhe admirar a abnegação com que me disse ainda assim sentir-se um privilegiado: apesar de tudo, não passava pelas dificuldades que pautam os dias dos seus amigos sírios.


O Hallel é como eu em muitas coisas: apesar dos dez anos que nos separam, já tem o hábito de tentar ver sempre o lado positivo das situações. No caso dele, nasceu num dos mais controversos pontos do planeta, mas ainda assim tem presente que podia ser pior. Pode sempre ser pior - tudo depende da perspectiva com que nos dispomos a olhar as coisas que a vida nos trás. 

Há precisamente um mês atrás dirigi-me à China para uma experiência meio conturbada que me fez valorizar tudo o que deixei em Portugal. E é curioso como o Hallel conseguiu ter em mim o mesmo efeito que um país inteiro: o apreciar a sorte que tive de nascer onde nasci, apesar de todas as dificuldades, dos contratempos e das adversidades. Afinal de contas, até aqui sobrevivemos a todos os nossos piores dias, desde que nascemos até ao exato segundo em que escrevo estas palavras.


E disso há um mundo inteiro de valor a retirar. Basta querer.



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