Até ontem, tinha andado pela Ásia modernizada. China, Coreia, Japão e suas grandes cidades ou pequenos e organizados centros urbanos. Mas ontem cheguei à Ásia a sério, aquela cujo calor esbofeteia e onde a pobreza nos revolve as entranhas de tão gritante. Aterrei em Cebu, cidade onde por norma se tem um pé no avião e o outro no autocarro ou ferry seguinte. Poucos são os que param para se deixarem engolir nesta amálgama de gentes simples e edifícios decrépitos. Na primeira hora que passei na rua recusei inúmeras ofertas de "ajuda", táxis, transportes, ou simplesmente homens que queriam interagir comigo. E este constante recusar de ajudas iria pautar o resto do meu dia até voltar à casa de hóspedes onde fiquei nessa noite. Chocante sim foi o contato que tive com as primeiras crianças que se meteram comigo. Não lhes daria mais que 4 a 5 anos, mas é difícil dizer pois eram crianças de rua, ou de pais muito pobres, e visivelmente subnutridas. De cócoras e pés descalços, esgravatavam qualquer coisa no chão, e mal me viram estenderam de imediato as pequenas mãos em jeito de prece, pedindo ajuda. Como estes, vi muitos, muitos outros. Crianças, adultos, idosos. Inclusive, ainda jantei com uma dessas meninas de rua, mas para ela ficará uma reflexão escrita noutro dia em que o calor não me tolde o discernimento como agora.
À medida que percorri a cidade, senti que estranhavam a minha presença (talvez demasiado branca), mas foi à noite que percebi o quão sozinha estava nesta cidade enquanto "turista". Com uma amiga espanhola que fiz nessa manhã, decidimos noite dentro ir visitar a Cruz de Magalhães, deixada no séc. XVI pelos nossos respectivos antecessores portugueses e espanhóis. E ali bem perto, o muito sui generis Carbon Market esperava por nós. Diria que fomos talvez a atração principal dessa noite, tal foi a atenção dispensada às duas branquelas que por ali de aventuravam. Ao contrário do que sugeriria a sujidade das ruas e a negritude dos edifícios ao nosso redor, o ar dominava-o antes um refrescante cheiro a frutas e legumes espalhados rua fora. Nunca antes me tinha sentido tão diferente, tão observada. Nessa noite fotografei um local que imediatamente me adicionou no Facebook, onde inclusive me viria a escrever, e passo a citar You mam your deperent of other american, your colour is nature. Passando por americana, não sei se se referiu à naturalidade com que ficámos na brincadeira com ele, ou à palidez que já trago comigo das grandes cidades.
Ainda ouvimos mais uns quantos "Kiss Kiss" até chegarmos ao Forte de São Pedro, seriam já umas 9h da noite. A inexistência de turistas por estas bandas é de tal ordem que o segurança do forte se prontificou imediatamente a fazer-nos uma pequena visita guiada, mesmo estando o edifício fechado já há várias horas. Acho que ele gostou ainda mais do inusitado daquele momento do que nós, tal foi a quantidade de fotos que a seguir nos pediu que tirássemos com ele.
Para uma cidade ontem passei pouco mais de 30 horas, Cebu marcou-me de várias formas e sei que ainda aqui vou voltar - tanto fisicamente, como por escrito. Agora é hora de desfrutar das próximas 3 horas neste autocarro sobrelotado e sem ar condicionado de onde escrevo, pois o calor aperta e o pensamento já custa a fluir. E outras paisagens mais verdejantes esperam por mim.


Claudia estou a adorar...a tua escrita quase me permite sentir o cheiro desses lugares. Obrigada. Espero ansiosamente pelo proximo capitulo :)
ResponderEliminarE eu adorava saber a quem estou a responder, e agradeço MUITO o elogio 🧡
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