Cheguei ao Anand Ashram Ubud num dia chuvoso, coisa rara até então na minha viagem. Efeito placebo ou não, sinto uma energia especial neste lugar, e sinto que me quero emergir nela tanto quanto as fronteiras da minha mente permitirem. Li sobre o Dharma mal aqui cheguei - fazer a coisa certa na altura certa. E no meu quarto, a mensagem não podia ser mais apropriada à ocasião: self-transformation is only possible if you recognize what are the things in you that need to be transformed, and then work on it (palavras de Swami Anand Krishna, o guru responsável pelo Ashram). Totalmente adequado. E porquê? Uma hora antes de aqui chegar, a minha companheira de viagem que decidiu juntar-se a mim neste retiro de yoga confrontou-me. Que o meu desapego e dificuldade em definir planos concretos para os dias depois do retiro a incomodavam, que não se sentia confortável com a minha autonomia para ela pouco normal. Na verdade, não me disse nada que eu já não soubesse. Nem sempre tive uma rede de apoio em alturas críticas. Quando mais precisei, nem sempre houve alguém por perto - e isso inevitavelmente deixa marcas. Portanto, sempre fui confrontada com o facto de ser demasiado autónoma na minha maneira de estar. Fosse por chefes no meu trabalho, pelas minhas amigas, ou em relações passadas. Não uma, não duas, mas várias vezes ao longo da minha vida adulta. Sei que sou assim e sei que não é fácil mudar. Mas não é impossível. E acredito que saber a raiz do problema já pode ser um excelente ponto de partida para o resolver. Foram muitas as vezes em que dependi apenas e só de mim mesma. Vezes de mais. E sinto que isso fez crescer em mim uma força bruta que por vezes soa estranha a quem teve percursos menos exigentes. Passo por rude, arrogante, indiferente. Quando na verdade estou a seguir velhos mecanismos de sobrevivência que me fizeram chegar até aqui.
Não acho contudo que isso me sirva de desculpa para continuar a agir dessa forma. Sou grata por ter sido confrontada ao longo dos anos pela minha liberdade gritante aos olhos dos outros, e sei agora que esse é um dos aspetos sobre os quais me vou debruçar nos próximos dias que aqui vou passar.
E a quem teve a coragem de me enfrentar para me apontar o dedo e reclamar a minha atenção, só posso agradecer, pois sem dificuldades não há evolução. E ninguém quer ser o mesmo para sempre, verdade?
Namaste

Adoro ler todos os teus "desabafos"...mas este...está maravilhoso!! Que bom!!!😘
ResponderEliminarObrigada por leres 🙌🙏
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