Falámos ao telefone noutro dia, e contava-lhe o sítio onde estou a viver agora. A minha interlocutora ficou manifestamente chocada com as condições em que me encontro. Para os nossos padrões ocidentais, não se pode sequer remotamente chamar de casa. Existem umas paredes de pé onde vive a família que me acolhe, um espécie de casa de banho onde tomamos banho com baldes de água fria, a cozinha é pouco mais do que um lume no chão que se acende todos os dias e duas prateleiras acossadas a uma parede. E o meu quarto? Bom, o meu quarto (que tenho a sorte de partilhar com uma artista francesa que adoro) é uma pequena cabana dependurada sobre o rio Mekong, as paredes são apenas lençóis e o chão é feito de bambu. As noites são frias e o isolamento acústico é - como se pode facilmente imaginar - inexistente. Não existe área de refeições. Sentamos-nos todos no chão, fazemos bolinhas de sticky rice com as mãos e partilhamos sopas feitas com ingredientes que raramente sei o que são. Limito-me a apreciar o que partilham comigo, pois foi a isso que me propus ao vir aqui. E isso estende-se claro está à simplicidade do que é a vida destas pessoas.
Lembro-me muitas vezes dos meus avós quando vejo o lume a arder, das histórias que me contavam em que também era assim que cozinhavam no antigamente. Penso em todos os (muitos) confortos que tenho em casa e no significado que tem privar-me de todas as comodidades que dou por garantidas. Vistas bem as coisas, não me posso queixar. Não me falta rigorosamente nada.
Nestes dias em Luang Prabang dou por mim com excesso de tempo livre para análises existenciais. Penso no que almejo para o futuro e a dada altura senti alguma angústia quanto à minha inexistência de novos sonhos. Pensei que não tinha mais nenhum sonho guardado por atingir - este de viajar era o maior de todos, e como está a ser tão maravilhoso concretizá-lo! Mas rapidamente me lembrei que me despedi, não tenho trabalho e preciso de sustento. Mas não é de um trabalho que preciso, e sim de uma paixão. Dias inteiros em escritórios que cumprem apenas e só o papel de me pagar as contas, os impostos, os seguros? Já dei para esse peditório.
Tornou-se por isso claro e evidente de mais que do que preciso é de uma paixão, de preferência daquelas que pagam a água, a luz e o gás.
Paixões, alguém com recomendações?

Temis demaus e esquecemos muitas vezes a simplicidade das coisas boas.
ResponderEliminarSaudades tuas Claudinha❤
Adoro os teus textos,fazes-me "voar"
Porque não tentas assistente de bordo? Viajas e paga as contas?
Pouca gente me chama Claudinha, mas não reconheço pelas palavras, senão de certeza que retribuía as saudades :)
EliminarDesculpa babeeee,
EliminarÉ a Ticha
Hahhh então confirmo, tenho saudades vossas também! 💙💙🤦
Eliminar❤ Saudades da tua carinha
ResponderEliminarEstou em Changi, lembrei-me de nós os 3 aqui :)
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