Mal cheguei ainda de noite à poeirenta Banlung, Ratanakiri, senti que estava finalmente no caminho certo. Estradas de um vermelho vivo ainda por alcatroar, pontilhadas de humildes construções de madeira e crianças sorridentes. A minha última paragem no norte do Cambodja, antes de atravessar a fronteira para o vizinho Laos. Apesar de estar de volta à estrada sem companheiros de viagem, a sede pelo desconhecido encheu-me de confiança e vontade de me embrenhar na vida desta povoação. Eram seis da manhã quando sozinha me aventurei pelo mercado local. Numa área predominantemente rural, pude apreciar de perto e com caráter de exclusividade (não havia um único viajante na zona àquela hora) o desenrolar das trocas comerciais. Vindos das aldeias circundantes desta pequena vila na província, os agricultores vendiam as suas frutas, legumes e carnes. Um deleite de cores e cheiros, talvez capaz de ofender narizes mais sensíveis. A sensação é a de estar perante um livro aberto cuja história pede para ser ouvida, mas não há narrador. Absorvo eu toda a narrativa com os meus próprios sentidos, o livro desenrola-se em pura realidade.
Esperei até as 8h da manhã para alugar uma mota, e por fim lá percorri os 5kms que me separavam da casa onde passei os restantes dias. Não podia imaginar que seria das minhas experiências favoritas até agora. Fui recebida em casa do Vuthy como se fosse um membro da família de visita. Fiz as refeições com eles, levei os miúdos à escola na mota, ajudei a trabalhar no terreno da família, inclusive fiz duas novas tatuagens com o mesmo tatuador do Vuthy. À noite jogávamos às cartas ou ficávamos só à conversa, consoante ditasse o cansaço nesse dia. Fiquei deveras impressionada com a autonomia dos miúdos. Com apenas 5 e 9 anos, estes pequenos faziam de tudo sem lhes ser pedido ou tampouco ordenado: lavavam os dentes, faziam os trabalhos de casa, vestiam-se sozinhos para ir para a escola, comiam os vegetais das refeições sem espernear. Nunca os vi fazer uma única birra nos dias que com eles passei.
Despedi-me do Cambodja e desta família com alguma nostalgia. Fui recebida de braços abertos por onde fui passando e sinto que era capaz de ficar os próximos anos a explorar cada recanto deste país, de tanto que me conquistou.

Quando regressa a Portugal?
ResponderEliminarOlá Professor! Daqui a uns meses, volto para o verão :)
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