quarta-feira, 4 de março de 2020

Kuala Lumpur, ou todas as religiões do mundo


A ignorância é uma benção, diz a sabedoria popular, com o tanto de ironia e presunção que cabe no facto de uma se pronunciar sobre a outra.

De facto, pensar demais pode tornar-se angustiante, especialmente quando de devaneios metafísicos se trata - como explicar a origem do universo ou entender afinal que entidade é esta que chamamos de Deus pelo mundo fora. Foi precisamente isso que fiz esta semana com o Hussein, o meu anfitrião de couchsurfing, expatriado do Yemen em Kuala Lumpur.

Eu educada à sombra do conservadorismo católico português. Ele muçulmano de gema. Não podíamos ter tido educações mais díspares, e ainda assim concordamos em tantos pontos sensíveis: ambos somos profundamente descrentes nas religiões organizadas, ambos reprovamos o conveniente e constante papel que tiveram ao longo dos séculos em manter a carneirada na ordem, e ambos abominamos o tanto de conflitos que estas patrocinaram na história das civilizações. E aliás ainda o fazem um pouco por todo o mundo, como é sobejamente sabido.

Apesar de reconhecer os bons princípios que me foram incutidos na igreja, privilegio ainda mais o facto de a minha sede de conhecimento e constante necessidade de tudo questionar me terem feito alinhar com a pragmática afirmação de Nietzsche: Deus está morto. Só lamento ter levado tantos anos a descortinar as perniciosidades impressas nos grandes dogmas da igreja católica: a culpa sempre presente, um pai que perdoa as nossas faltas em linha com a constante necessidade de redenção, e a passadeira vermelha a caminho do inferno se não pedirmos perdão, não nos arrependermos, e não rezarmos o acto de contrição três vezes antes de irmos dormir.

Tipo, a sério?...

Um destes dias ouvia a última entrevista em vida de Tiziano Terzani, famoso correspondente de guerra italiano e homem de uma sabedoria invejável, onde constatava a mais pura das evidências: a religião clama que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. E Terzani do alto da sua sapiência, alerta para o contrário: foi sim o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança. Com muito do que temos de bom, mas nele replicando igualmente muito do que temos de mau.

Hoje enquanto deambulo por Kuala Lumpur, vejo-me rodeada de hijabs e burkas. Sei que parte destas mulheres o fazem de livre e espontânea vontade, pelas suas crenças e tradições, mas pergunto-me se lá no fundo questionam os fundamentalismos descabidos e sexistas inerentes às religiões em que foram educadas. As temperaturas hoje estão perto dos 40 graus, e estou de calções e camisola de alças. Sou observada tanto por homens como por mulheres, como se a minha pele exposta constituísse algum atentado à moral e aos bons costumes. Logo eu, que acima de tudo sou profundamente apologista das liberdades e do livre arbítrio.

Como dizia o poeta e bem, há metafísica bastante em não pensar em nada, e por isso dou por concluída a controversa reflexão do dia.

Amén.

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