sábado, 7 de março de 2020


És tão confiante que pensei que fosses lésbica.

Tão simpático elogio foi-me feito pela Mirja, outra voluntária que conheci nos meus dias em Luang Prabang. Encontrámos-nos algumas vezes, mas só na minha última noite a Mirja decidiu partilhar comigo a sua história. E ela estava certa.

Hoje em dia a falta de confiança não é de todo um problema que me aflija. Mas nem sempre foi assim. Influenciada pela cultura de consumo e tal como milhões de outras miúdas, nem sempre estive satisfeita com o meu corpo, pois estava convencida que as minhas curvas não se coadunavam com os cânones de beleza impostos pelas Vogues desta vida. Na escola, também passei alguns episódios de pseudo bullying, mas a bem dizer da verdade, nada assim tão grave que me tenha feito mossa. Era gozada por a minha mãe sofrer de obesidade mórbida. Porque a minha roupa era comprada na feira e não nalguma loja de marca. Porque o meu cabelo era encrespado e cheio de volume quando o escovava. E senti vergonha quando percebi que de todas as casas de amigos/as que conheci na altura, a minha era a que menos se parecia com um "lar". A faculdade também não foi propriamente próspera. Lembro-me que no primeiro ano, ia para Lisboa com 20€ no bolso (sim, vin-te-eu-ros). E tinha que os fazer durar até sexta-feira quando voltasse a casa. Comer, pagar fotocópias, e beber uns copos de vez em quando. Afinal de contas, é a faculdade e beber faz parte da etiqueta. Tinha pouco ou nenhum dinheiro e tinha sempre medo de não ser aceite porque não tinha condições de acompanhar todos os eventos sociais.

Anos mais tarde, as minhas inseguranças  materializaram-se numa fome emocional que me fez chegar a pesar 85kg. Não cabia em quase nenhumas das minhas calças, e encontrar algumas que me servissem nas lojas habituais era um verdadeiro pesadelo. Odiava o que via ao espelho e chorei várias vezes cheia de auto comiseração. Hoje olho para trás e não me reconheço nessa pessoa frágil e insegura que fui durante tanto tempo.

Não sei bem como, até porque não houve nenhuma epifania, mas a dada altura tudo mudou. Comecei a alimentar-me de forma responsável, perdi peso e passei a adorar o que vejo ao espelho. E não (breaking news everyone!) não tenho o peso ideal. Mas não podia estar menos preocupada com isso. Adoro-me tal e qual como sou, e isso já ninguém me tira.

Quando estive no Boom em 2018, fiquei surpreendida e fascinada com a percentagem elevada de pessoas que não usavam qualquer roupa durante o festival. E isso inclui bikinis, calções de banho, o que seja. Nu integral, puro e duro. Pessoalmente, não retiro nenhum prazer de andar toda nua assim no meio de toda a gente e por isso não o fiz. Mas numa dada manhã decidi abrir uma exceção, e fui com o meu primo a uma piscina de lama cavada no chão da herdade. Como não queria estragar o bikini, lá me despi e mergulhei no bendito banho de lama. Desconhecidos que partilhavam aquele momento comigo imediatamente me cobriram de lama, enquanto um deles tocava uma qualquer música de Bob Marley numa guitarra. E porra, poucas vezes me senti tão livre e espontânea na vida como naquele momento em que nua me deixei cobrir de lama. E apesar de já vir sentindo que algo vinha mudando na minha percepção de mim mesma, nesse dia algo se solidificou dentro de mim, um pouco como a lama que enrijecia enquanto me sentei ao sol. Ver aquelas pessoas todas nuas e a não darem a mínima se são gordas ou magras, mais altas ou mais baixas, who cares, foi sem dúvida um momento de transição na forma como me vejo.

Felizmente as minhas prioridades são outras e o tempo é curto para o desperdiçar em ideias infelizes sobre se o meu corpo preenche os requisitos de fulano ou de sicrano. Sou como sou, e gosto hoje de mim mais do que nunca.

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