quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Kuruksetra


Photo @ Isaura Verhelst


Aqui, a humidade abraça-nos os ossos desde dentro.

A roupa que lavamos à mão com sabão azul e branco nunca chega a cheirar bem. Porque nunca seca totalmente, ou em secando, isso leva tanto tempo que o cheiro a humidade é inultrapassável. Ou então cheira ao fumo da fogueira constante que mantemos acesa para afastar os insectos. Os quais também sarcasticamente desdenham as nossas queimadas, já que nos fustigam a pele em ignorando as nossas orações ao fumo. O mais próximo de modernidade que temos aqui é a bilha de gás que alimenta o fogão industrial onde cozinhamos e a única torneira que serve os 7 hectares da propriedade. Para lavar pratos, cozinhar, higiene diária, banhos. Literalmente para tudo. O duche é ao ar livre, as “paredes” que simulam ocultar o nosso corpo são feitas de bambu, e em calhando tomamos banho debaixo de chuva. Vamos dormir pouco depois de escurecer, e por volta das 6h estamos normalmente acordados - se não logo às 5h, quando os galos começam a cantar (acho que têm os relógios biológicos avariados).

Hoje pelas 7h30 lavava dois extensos cestos de loiça, e pensava do ponto de vista filosófico no imensa desconstrução da tradicional vida moderna que aqui se leva a cabo. Os proprietários deste lugar não têm empregos, o terreno e a vida diária são por si só um emprego a tempo inteiro. Tudo é feito de raiz. O cacau é tratado desde a sua forma original (bem distante das barras de chocolate que estamos habituados a tirar das prateleiras do supermercado), o sal é moído porque é comprado em grosseiros pedaços, o leite de coco é extraído manualmente. Tudo requer tempo e paciência, e a grande generalidade das tarefas oferece uma oportunidade meditativa e de contemplação. Os proprietários vivem segundo a filosofia Hare Khrishna, e por isso não se come carne nem ovos.

E assim se vive num ciclo diário de tarefas que trazem imensa satisfação a quem as executa, ao passo que no nosso querido mundo ocidental, estamos completamente escravos dos nossos empregos com os quais pagamos todos os apetrechos e maquinarias que tornam essas tarefas diárias mais curtas e menos trabalhosas. 

Pessoalmente, vejo-me como incapaz de viver este estilo de vida de forma permanente. Tenho a percepção de que nunca nada está devidamente limpo, as minhas unhas por muito que tome banho têm sempre algum resíduo de terra, e sinto alguma falta dos confortos trazidos pela eletricidade - de que os proprietários intencionalmente prescindem. Ainda assim, não trocaria estes dias por outros mais confortáveis no sossego de minha casa. Esta desconstrução do óbvio é um presente enriquecedor que me fará apreciar ainda mais as facilidades da vida moderna quando voltar a casa daqui a uns meses. E por muitas voltas que dê, sinto que às vezes ainda dou por mim a dar tudo por garantido. E sabe bem recordar que nem sempre foi, é e nem será assim.


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