Cláudia, porque vais para outro país se tens uma casa nova?
Porque não tenho apego às coisas materiais, respondi-lhe.
Isso quer dizer o quê?
O Kiko tem apenas 5 anos e quando me fui despedir dele não esperava ter que lhe explicar o conceito de desapego. Tentei por outro lado dizer-lhe que o mundo é imenso e cheio de coisas incríveis que quero mesmo muito ver, e que não quero estar parada no mesmo sítio para sempre. Ele contestou imediatamente dizendo que ia viver para sempre ali em casa, com os pais e o irmão.
A minha prima Anita, que por seu turno já conta 72, até hoje não percebe que “bicho” é esta que tenho que me faz andar sempre a carimbar o passaporte de um lado para o outro. Dei-lhe a mesma resposta que ao Kiko - preciso de ver o mundo. E tenho uma vida inteira para estar no mesmo lugar, não tenho muita pressa em assentar arraiais. Nem com uma casa acabada de estrear.
Admito, nas últimas horas em Portugal enquanto admirava a paz silenciosa que envolve o lugar verdejante e rural onde vivo agora, questionei a minha própria sanidade mental que me faz sair do conforto de uma casa que tem tudo o que preciso, para o outro lado do mundo onde tenho a época das chuvas à minha espera - pequeno pormenor que não acautelei porque não gosto de planear. Mas viajar para mim é isso mesmo. Vou e pronto. Não persigo o eterno verão, senão a experiência de abandonar todos os confortos e sentir na pele o que é viver nesses países longínquos onde a vida é tão diferente dos moldes em que a concebemos em Portugal.
E desta vez, nada mais simbólico do que começar esta aventura no meridiano zero, em Quito, Equador, onde o hemisfério norte e o sul se dividem. O qual segundo as notícias entrou em declarado estado de emergência nas últimas horas face devido à onda de violência do narcotráfico. E uma extraordinária escolha também para me deixar doente, do alto dos seus 2850 metros de altitude. Mal saí do avião às 5h da manhã, o choque de temperaturas foi de tal ordem que estou a passar estes primeiros dias doente. Só me apetecia estar em casa na minha cama, com todos os caprichos que pede um resfriado destes.
Mas deixei-me de merdas. Meti-me num autocarro e estou neste exato momento a caminho da selva, onde vou dormir numa tenda, não terei internet nem luz, e onde vou cozinhar para a comunidade onde me vou inserir. Quiçá um dia quando o Kiko crescer e lhe contar destas aventuras, consiga aí entender o meu desapego das coisas materiais que desta vez não consegui, e fazê-lo compreender que nem todos nascemos para viver a vida nos moldes em que esta nos foi apresentada. E o quanto de aventuras que acontecem quando saímos dessa caixinha ocidental para vermos o mundo com os nossos próprios olhos. E o tanto que isso me faz feliz - até doente como estou agora.
5*
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