quinta-feira, 17 de outubro de 2019

"Don't let China get under your skin"


Tenho pela frente 19 horas de comboio, mais do que o necessário para suprimir a distância que separa a charmosa Shangai da misteriosa Guilin. Sim, poderia ter optado por menos horas de viagem, mas não queria deixar de viver a experiência de dormir a bordo de um comboio e desfrutar da respetiva alimentação à base de noodles preparados com água quente disponível em todas as carruagens. Na verdade, a água quente é omnipresente, há sempre alguém a comer noodles em algum lugar. E já diz a velha máxima, se não podes vencê-los, junta-te a eles. Foi o que fiz por diversas vezes, ao ponto de já comer noodles até ao pequeno almoço.

Partilho a cabine com pessoas que estranham a minha presença, mas talvez ainda mais o facto de ter um livro nas mãos. Um simples livro. Não me lembro de ter visto ninguém com um por estas bandas. Parecem uma memória menor e distante, vítimas inevitáveis desse vício doentio que são os telemóveis. 


Aproxima-se o final da tarde, e é impossível não reparar que tanto a alvorada como o ocaso se vestem quase sempre de uma penumbra como não me lembro de ter visto noutros países. Apologista de metáforas que sou desde que lhes aprendi o sentido, não consigo evitar a associação óbvia. É como se essa penumbra - que mais não será do que apenas e só o smog que dilacera este país de dentro para fora - de alguma forma retratasse o manto invisível com que a orientação comunista reveste este país de norte a sul, de este a oeste. 


Os assuntos proibidos, as gentes como que coibidas de interagirem com estrangeiros, uma ingenuidade quase infantil que sinto ser transversal à população inteira. Pergunto-me várias vezes se a barreira será meramente linguística - dado que poucos falam inglês - ou se se deverá essencialmente a orientações profundamente diferentes daquelas a que estamos habituados no mundo ocidental.


Nunca como na China valorizei tanto a educação que o ensino português me proporcionou. A minha liberdade de pensamento, de discurso, de ação. E também a minha liberdade religiosa, apesar dessa já nada me importar. Sempre os tive como dados adquiridos, mas há algo de bastante castrador em não saber muito bem como fazer uma simples pesquisa no Google, porque este pura e simplesmente não está disponível na complexa web chinesa.
Basta rumar a Oriente para as nossas referências se desfazerem por terra, e no meu caso particular, apreciar mais uma vez aquilo que sei ter em casa à minha espera - e essa valorização é dos maiores prazeres que tiro das viagens, sem qualquer sombra de dúvida. 
É por isso que é tão bom sairmos das nossas bolhas, mesmo que dê trabalho, que seja desafiante, às vezes até doloroso. Sim, a China tratou-me de tal forma que cheguei a questionar as minhas escolhas de olhos marejados. Mas sobrevivi-lhe, pois também é dessa exposição que me desafia que vim à procura. Se para isso não fosse, mais valia ter ficado sentada à secretária a pensar nas próximas férias.





2 comentários:

  1. “Aproxima-se o final da tarde, e é impossível não reparar que tanto a alvorada como o ocaso se vestem quase sempre de uma penumbra como não me lembro de ter visto noutros países.” LINDO!!! 🙏🏽

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