quinta-feira, 17 de outubro de 2019



Não sei bem situar quando é que esta viagem se começou a desenhar dentro de mim. Desde pequena, sempre vivi numa urgência de partir, um desejo de explorar que nunca senti satisfeito nas viagens de curta duração que fui fazendo desde que comecei a juntar dinheiro para as fazer - tinha apenas 14 anos. Nunca quis roupas ou CD's ou quaisquer outras pequenas futilidades normais nessa idade. Apenas e só aquele bilhete mágico de avião que me levava para longe, para sítios novos e paisagens com as quais só podia sonhar.

Desta vez, segui uma regra básica para quem quer fazer dos sonhos algo mais do a insónia em que por vezes se transformam, mas desconhece qual o primeiro passo: sem ter qualquer plano delineado, comecei por dizer a toda a gente que me ia despedir e ia para a Ásia só com um bilhete de ida. No início, acho que pouca gente acreditou em mim. E aqui me confesso, eu própria desconfiei de que seria capaz de levar o meu (não) plano avante. Mas a verdade é que esta estratégia básica de verbalizar a minha intenção a meio mundo resultou: o anúncio estava feito e não podia voltar atrás. E tudo o que fiz foi levar as vacinas obrigatórias, comprar um bilhete rumo à China, e encontrar quem me desse casa nesses primeiros dias. Não preparei rigorosamente mais nada.

E não ter um plano implica que tenho vários meses pela frente, o desejo de visitar cerca de 17 países, mas nenhum trajeto delineado. Quem escolhe os meus próximos passos por mim é o Skyscanner. Quase como naquele clichê de quem gira um daqueles globos retro e viaja para o país onde calhar a tocar com a ponta do dedo.
Nunca fui adepta de organização excessiva. Tenho uma maneira espontânea e às vezes meio tonta, como diriam algumas amigas minhas, de fazer acontecer as coisas. E a verdade é que bem ou mal, com mais ou menos sobressaltos, elas vão acontecendo. Mas no que toca a escolher um percurso para esta viagem, percebo agora ao fim de 23 dias de estrada que nunca seria para mim ter um trajeto fechado e rigoroso. Percebo agora que esta minha fluidez é apenas e só a feliz materialização de todas as vezes em que acordei nos últimos 11 anos, e tudo o que desejava era correr para o aeroporto da Portela e comprar um bilhete para o próximo avião que cruzasse o céu de Lisboa. Claro que esta ideia teria muito pouco de romântico se o voo fosse para Madrid ou para o Funchal. Mas não é isso que importa. A verdade é que foram mesmo muitas as vezes em que esse era o desejo maior que em mim morava. E agora posso de peito feito e orgulho transbordante dizer que essa se tornou a minha vida - pelo menos para os próximos tempos. Agora sim, posso finalmente acordar todos os dias e pedir ao Skyscanner que tenha a gentileza de escolher um destino simpático para mim. Literalmente todos os dias. Até agora não me tratou mal. Depois da China, levou-me à Coreia do Sul e por enquanto estou pelo Japão. Até quando? Não faço ideia.

Há vidas melhores que esta? Com certeza que sim, e piores também, não duvido. Mas esta é a minha, a que incubei durante anos, e que agora abraço todos os dias com compromisso e entrega. Porque mesmo sem caminho traçado, é ao improviso que me entrego. 11 anos de escritórios, fatos e gravatas e horários definidos já foram demais, bem demais do que o desejável. 

E só posso desejar que assim dure a minha liberdade.

15 comentários:

  1. Muito bom☺️ Voaaaa bem alto��

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  2. Sempre disseste que era o que mais gostavas de fazer e que um dia haverias de partir sem rumo. Estás a concretizar o teu sonho! O sonho de uma vida! Continua com Deus sempre a olhar por ti, que nós, aqueles que gostam de ti, cá estamos a “viajar” contigo. Beijinhos

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  3. Sê feliz!
    Tu mereces...
    Um beijinho muito grande cá de casa ❤️

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  4. Boa viagem Cláudia.
    Revejo-me em muita dessa ânsia e sede de partir... E esse bichinho que está dentro de nós quando desperta já mais pára de crescer.

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  5. mulher, eu estou de boca aberta. que corajosa. que ousada. estou fã.

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    1. Não sou inovadora em nada, na verdade. Mas não é de inovar que se trata, portanto agradeço o elogio. Também sou tua fã, assim estamos quites 👌

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  6. chegando aqui ao fim, que é o principio, a palavra que me ocorre depois de ver este caminho é peregrinação

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  7. ah, e o título do blogue é um achado

    genial

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