sábado, 30 de novembro de 2019

Do avô e céus estrelados



Em tempos sonhei com o meu avô, e nesse sonho revi uma foto nossa em que estamos na praia da Foz do Arelho. Eu bebé sentada no colo dele, com um pequeno pedaço de pão à boca. Sempre a adorei, até porque não tenho muitos mais registos fotográficos com ele. Nesse sonho, o meu avô deixou-me uma mensagem clara, mas na altura pouco perceptível: que devia voltar a ser criança outra vez. Na altura não percebi bem o significado daquelas palavras, daquele sonho, daquela imagem em particular. Foram precisos vários meses, uma distância gigante de casa, e umas quantas semanas a saltar de ilha em ilha para por fim perceber o que era afinal tão óbvio. 

Nasci alegre, às vezes talvez até tenha sido excessivamente exuberante nessa alegria. Mas as vicissitudes da vida encarregaram-se de me ir roubando essa natural capacidade de rir, de sorrir, de gargalhar. Dei por mim muitas vezes triste, de cara trancada, incapaz de rir ou de fazer sorrir os outros, como antigamente sabia fazer. Tantas vezes me disseram que tinha os olhos tristes, demasiado tristes.

Mas o feedback que tenho recebido não podia ser mais diverso desses tempos agora distantes. Oiço com frequência que os meus olhos irradiam uma luz diferente, nova, pura. Que a minha pele brilha de felicidade - apesar de eu achar que é só o dourado do sol a iludir-vos em meu benefício. Que o meu sorriso está mais sincero do que nunca. Dizia-me a minha amiga Maggie que era bom quando eu fazia animar o grupo, mas que é ainda melhor ver-me genuinamente feliz. E tudo isso é maravilhoso, mas gira apenas à minha volta. A satisfação verdadeira, têm sido as outras mensagens que tenho recebido. As das duas mães com filhos pequenos em casa, ambas de bilhetes comprados, porque as inspirei a saírem da rotina. Outra amiga que me diz tocar aquela música maravilhosa que descobri na Coreia do Sul para o filho adormecer. Desconhecidos que me querem conhecer porque ficaram admirados com a minha ideia louca (e na verdade em nada original) de me despedir para vir viajar. Nunca pensei que esta minha ideia pudesse impactar na vida de outras pessoas, e sinto uma alegria enorme quando penso nisso. Mas tenho conhecido tanta gente que faz exatamente o que eu fiz, que sou apenas mais uma no meio de tantos outros. Não obstante, se esta minha pequena loucura tiver servido para que alguém compre um bilhete de avião para ir a algum lado, para mim terá valido ainda mais a pena. 

E é de olhos marejados que me chega esta reflexão, pois sempre me convenci que os meus olhos tinham contornos tristes. E foi preciso viajar até ao outro lado do mundo, fazer esta viagem de 4 dias de barco entre as Flores e as Gili, e escrever-vos debaixo deste céu estrelado para descobrir que não. Afinal, os meus olhos não eram nada tristes, e o meu avô tinha razão - só precisava de voltar a ser criança outra vez, a saber gargalhar sem reservas, sorrir com ligeireza e sentir sem restrições. Sim, os meus olhos brilham da mais pura das felicidades e a minha pele parece concordar. Obrigada avô pela tua mensagem que demorei tanto tempo a perceber. Resgatei de novo a criança que fui um dia, e não podia estar mais feliz.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019



Hoje foi dia de turbulência. Tem sido raro o voo em que não acontecem aqueles dois a três segundos de aparente queda livre (que parecem uma eternidade) e que nos fazem pensar na morte. Os que viajam acompanhados dão imediatamente as mãos, os outros agarram-se às cadeiras, ouvem-se gritos de aflição seguidos de suspiros de alívio quando tudo acaba. Dei por mim em diversas destas ocasiões a retrospetivar o meu próprio percurso. Se este avião hoje se desfizer em mil pedaços e me levar com ele, fui feliz? Fiz tudo o que queria? Valeu a pena? Podia ter feito tudo de forma diferente? Invariavelmente, sinto uma bizarra tranquilidade sempre que tenho o mais ténue vislumbre da morte. Penso que fiz mais do que à partida estaria traçado no meu destino. Nasci numa pequena aldeia no campo, o meu avô negociava madeiras e afins, a minha avó vendia peixe antes de se casarem.  Quando apareci eu vários anos mais tarde, a humildade continuava a ser um denominador comum. Não vivíamos com muito, mas acho que também nunca me faltou nada. Na linha direta de descendência dos meus avós, fui a primeira a ir para a universidade. A minha mãe e tios não foram além do ensino básico. Não se usava tal coisa na altura, e ia-se "ajudar" para a fazenda. Apesar de não ter sido privada de estudos, também não me livrava de lá ir sempre que fosse precisa, e desde pequena lá ajudava na semeia ou na apanha da batata, e a colher fruta se calhasse. Ganhei calo. A minha mãe engravidou com apenas 18 anos e o meu pai nunca fez parte de nada, a não ser do meu imaginário assombrado pela sua ausência. Nunca me contaram ao certo o porquê de ter sido "abandonada", mas quando tirei a carta com 18 anos fui imediatamente atrás dele, atrás de respostas. Perguntei-me muita vezes o que havia de errado comigo. O que podia fazer um bebé de colo de tão errado, que levasse um dos progenitores a simplesmente ignorar toda a sua existência. Este abandono atormentou-me na infância e adolescência, e deixou traços na minha personalidade que pelo menos hoje consigo identificar e entender. Já o Freud atribuía aos nossos pais a culpa dos nossos problemas na vida adulta.

Ontem uma amiga dizia-me keep your eyes on the horizon. Não num sentido poético da coisa, lamento desiludir, mas simplesmente porque me sentia enjoada na travessia de mar meia turbulenta que então fazíamos. E pensando nisso, talvez seja mesmo esse manter o olhar no horizonte em tempos de turbulência que me tenha feito chegar até aqui. Como diz e bem a sabedoria popular, águas mansas não fazem bons marinheiros.

Voltando da embarcação de ontem ao avião turbulento de onde hoje escrevo, trago poucos arrependimentos. E sinto que sim, que se este avião hoje caísse, sempre fiz o que pude com as condições que me foram dadas. Tenho amado com quantas forças tenho dentro de mim, viajado tanto quanto possível, realizado os sonhos que sonhei, e sim, tenho vivido uma vida feliz e preenchida.

E agora mais feliz ainda, porque o avião chegou a terra são e salvo, e daqui a umas horas apanho outro que me há-de levar de Manila até Bali, para juntar um outro tanto de aventuras a este diário feliz que têm sido estes últimos anos.

E na despedida das Filipinas, faço-o em tagalo: Salamat, o meu agradecimento à vida feito na língua local.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019



Filipinas. Não é amor à primeira vista, especialmente se houver tempo para explorar alguma das cidades. Mas com o passar dos dias, percebo que cheguei a um país encantado. Há segredos que pedem para ser desvendados - como que assomam numa espécie de murmúrio que só se escuta quando as embarcações desligam os motores e se aproximam das paradisíacas praias desertas que pontuam a paisagem. Um sussurro subtil apenas audível quando os tricycles ficam distantes em terra e só o som da rebentação nos embala sob o céu azul de uma qualquer praia. O silêncio imponente das paisagens montanhosas, vestidas de verdes e azuis que não vemos todos os dias. É este o país que se encontra quando não escolhemos o tour A, B, ou C, mas entramos em embarcações de pescadores que nos mostram o mundo para além dos percursos que alguém predefiniu.

Entrei nesse mundo quando me dei como "cobaia" para uma primeira viagem e acampamento numa ilha deserta, com outras quatro pessoas que conheci nesse dia - uma inglesa, uma bósnia, um canadiano e uma belga - todos nós em longas viagens a solo pela Ásia. Fizemos a viagem mesmo com aviso de tufão, e claro que como era previsível, fomos atingidos sem dó nem piedade por volta das 4h da manhã. Chuva e vento fortíssimos, tendas abaladas pela violência da tempestade, água por todo o lado, e a ameaça constante de uma árvore desabar sobre as nossas cabeças. Não voltámos a pregar olho nessa noite, mas apesar do cansaço e do mau tempo, apreciei o facto de termos voltado a terra ilesos. Não sem antes ter vivido sozinha aquele que foi para mim o ponto alto da viagem. Alan, o pescador e guia que nos acompanhou e com quem empatizei de imediato, convidou-me para visitar a sua casa. Não pensei duas vezes e saltei imediatamente a bordo com ele, íamos buscar peixe para o almoço do grupo. Quando nos aproximávamos da aldeia do Alan, Lady Grace, a nossa cozinheira filipina de serviço, surpreendeu-me com uma das suas (muito) inocentes perguntas: se as casas em Portugal também eram como as que tínhamos diante de nós. Chamar-lhes casas requeria uma generosa dose de imaginação. Eram simples construções, como que barracões construídos em estacas sobre as águas. A mais humilde aldeia piscatória que alguma vez conheci, e a casa do Alan não era exceção. Duas divisões comuns a servirem de sala, entrada e cozinha, uma espécie de quarto para o casal, três filhos e a sogra, e uma tentativa de casa de banho. Tudo muito filipino, sem mobílias à vista, portas tampouco. Um remendo de madeiras e placas de zinco com divisões separadas por pedaços de tecido. E assim viviam as pessoas naquele canto do planeta, na maior das humildades. Mas nunca os vi frustrados com aquilo que para um português comum seria um óbvio cenário de miséria com condições de salubridade bastante duvidosas. Desde as crianças aos idosos, todos me receberam com curiosidade e sorrisos rasgados, mesmo estranhando ali a minha presença tão deslocada. Fiquei por várias vezes desarmada com este bem receber filipino, este constante "morning, 'mam" com que somos brindados diariamente.

São experiências incríveis como esta que podemos esperar viver se sairmos da nossa zona de conforto, dos nossos padrões tão ocidentalizados. Mente e coração abertos são essenciais à viagem, bem como ter presente que grande parte da humanidade não vive com o nível de conforto a que nos habituámos e damos por garantido. E não só aqui, mas sempre que nos aventuramos fora dos percursos habituais. Off the beaten track.

sábado, 2 de novembro de 2019


No doctors here. You work through the pain.

Assim dito a seco, foi estranho de ouvir. Vinha de uma viagem de quase três horas esborrachada por dois filipinos que dormiam apoiados um no outro, sendo eu o recosto final daquelas duas almas. Eu e o meu ombro lesionado e apertado contra o vidro do autocarro. Depois dos dias de pausa que lhe dei no Japão, a minha mochila de seus míseros 40 litros parecia mais pesada do que o habitual. Saí da casa japonesa ao meio dia, só aterrei numa cama filipina passava já da uma da manhã. E o meu ombro vinha por isso ofendido do constante veste e despe da mochila. Ou disso, ou de alguma somatização de ansiedade que o meu corpo tenha decidido materializar na dor aguda que me afligiu durante estes dias.

Apesar de não ter equacionado ir a um médico por tão pouco, a minha anfitriã Anna fez questão que eu soubesse da sua inexistência. Em Moalboal, fui alojada por um casal de couchsurfers, ele filipino, ela russa. Couchsurfing é uma comunidade internacional de viajantes onde podemos oferecer um lugar em nossa casa/sofá ou ser recebidos dessa forma, gratuitamente. E é para mim a melhor forma de estar com pessoas que vivem nos sítios que visito, potenciando o intercâmbio cultural que tanto aprecio. E estes meus anfitriões foram mais uma confirmação do quanto esta comunidade tem de positivo. Fiz o meu batismo de mergulho com o Fritz, e tive a sorte de nadar no meio de milhares de sardinhas, ver tartarugas gigantes, famílias de peixe palhaço e estrelas do mar de cores que nem sabia existirem. Nascida e criada que fui ao pé do mar, senti que voltava a casa naqueles momentos únicos de contemplação que o oceano proporciona.

Passámos ainda boas horas à conversa e cozinhei para eles uma ou outra vez - para mim, retribuir hospitalidade com culinária é protocolo internacional básico de boas maneiras e é algo que adoro fazer. E com eles soube particularmente bem, pois fizeram questão de que soubesse que apesar de constantemente receberem couchsurfers e hóspedes através do Airbnb, eu tinha sido a primeira pessoa a cozinhar para eles. Ao que parece, o Fritz é exigente com a comida, mas lambuzou os dedos de satisfação com a bolonhesa que lhes preparei. Disse que estava ao nível de restaurante. Missão cumprida com sucesso.


No último dia que passei com eles, fizeram questão de me convidar a jantar um prato filipino e a Anna levou-me a fazer snorkeling mais uma vez. E apesar do meu ombro me ter doído na maior parte do tempo em que estive em Moalboal, no último dia nadei sem qualquer tipo de dor ou limitação. Recordei com prazer as palavras da Anna com um timing perfeito e o seu quê de premonitório, pois foi exatamente nesse último dia que senti o meu ombro finalmente recuperado, depois de tanto Tiger Balm que lhe apliquei.

Work through the pain. Always.