No doctors here. You work through the pain.
Assim dito a seco, foi estranho de ouvir. Vinha de uma viagem de quase três horas esborrachada por dois filipinos que dormiam apoiados um no outro, sendo eu o recosto final daquelas duas almas. Eu e o meu ombro lesionado e apertado contra o vidro do autocarro. Depois dos dias de pausa que lhe dei no Japão, a minha mochila de seus míseros 40 litros parecia mais pesada do que o habitual. Saí da casa japonesa ao meio dia, só aterrei numa cama filipina passava já da uma da manhã. E o meu ombro vinha por isso ofendido do constante veste e despe da mochila. Ou disso, ou de alguma somatização de ansiedade que o meu corpo tenha decidido materializar na dor aguda que me afligiu durante estes dias.
Apesar de não ter equacionado ir a um médico por tão pouco, a minha anfitriã Anna fez questão que eu soubesse da sua inexistência. Em Moalboal, fui alojada por um casal de couchsurfers, ele filipino, ela russa. Couchsurfing é uma comunidade internacional de viajantes onde podemos oferecer um lugar em nossa casa/sofá ou ser recebidos dessa forma, gratuitamente. E é para mim a melhor forma de estar com pessoas que vivem nos sítios que visito, potenciando o intercâmbio cultural que tanto aprecio. E estes meus anfitriões foram mais uma confirmação do quanto esta comunidade tem de positivo. Fiz o meu batismo de mergulho com o Fritz, e tive a sorte de nadar no meio de milhares de sardinhas, ver tartarugas gigantes, famílias de peixe palhaço e estrelas do mar de cores que nem sabia existirem. Nascida e criada que fui ao pé do mar, senti que voltava a casa naqueles momentos únicos de contemplação que o oceano proporciona.
Passámos ainda boas horas à conversa e cozinhei para eles uma ou outra vez - para mim, retribuir hospitalidade com culinária é protocolo internacional básico de boas maneiras e é algo que adoro fazer. E com eles soube particularmente bem, pois fizeram questão de que soubesse que apesar de constantemente receberem couchsurfers e hóspedes através do Airbnb, eu tinha sido a primeira pessoa a cozinhar para eles. Ao que parece, o Fritz é exigente com a comida, mas lambuzou os dedos de satisfação com a bolonhesa que lhes preparei. Disse que estava ao nível de restaurante. Missão cumprida com sucesso.
No último dia que passei com eles, fizeram questão de me convidar a jantar um prato filipino e a Anna levou-me a fazer snorkeling mais uma vez. E apesar do meu ombro me ter doído na maior parte do tempo em que estive em Moalboal, no último dia nadei sem qualquer tipo de dor ou limitação. Recordei com prazer as palavras da Anna com um timing perfeito e o seu quê de premonitório, pois foi exatamente nesse último dia que senti o meu ombro finalmente recuperado, depois de tanto Tiger Balm que lhe apliquei.
Work through the pain. Always.

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