Hoje foi dia de turbulência. Tem sido raro o voo em que não acontecem aqueles dois a três segundos de aparente queda livre (que parecem uma eternidade) e que nos fazem pensar na morte. Os que viajam acompanhados dão imediatamente as mãos, os outros agarram-se às cadeiras, ouvem-se gritos de aflição seguidos de suspiros de alívio quando tudo acaba. Dei por mim em diversas destas ocasiões a retrospetivar o meu próprio percurso. Se este avião hoje se desfizer em mil pedaços e me levar com ele, fui feliz? Fiz tudo o que queria? Valeu a pena? Podia ter feito tudo de forma diferente? Invariavelmente, sinto uma bizarra tranquilidade sempre que tenho o mais ténue vislumbre da morte. Penso que fiz mais do que à partida estaria traçado no meu destino. Nasci numa pequena aldeia no campo, o meu avô negociava madeiras e afins, a minha avó vendia peixe antes de se casarem. Quando apareci eu vários anos mais tarde, a humildade continuava a ser um denominador comum. Não vivíamos com muito, mas acho que também nunca me faltou nada. Na linha direta de descendência dos meus avós, fui a primeira a ir para a universidade. A minha mãe e tios não foram além do ensino básico. Não se usava tal coisa na altura, e ia-se "ajudar" para a fazenda. Apesar de não ter sido privada de estudos, também não me livrava de lá ir sempre que fosse precisa, e desde pequena lá ajudava na semeia ou na apanha da batata, e a colher fruta se calhasse. Ganhei calo. A minha mãe engravidou com apenas 18 anos e o meu pai nunca fez parte de nada, a não ser do meu imaginário assombrado pela sua ausência. Nunca me contaram ao certo o porquê de ter sido "abandonada", mas quando tirei a carta com 18 anos fui imediatamente atrás dele, atrás de respostas. Perguntei-me muita vezes o que havia de errado comigo. O que podia fazer um bebé de colo de tão errado, que levasse um dos progenitores a simplesmente ignorar toda a sua existência. Este abandono atormentou-me na infância e adolescência, e deixou traços na minha personalidade que pelo menos hoje consigo identificar e entender. Já o Freud atribuía aos nossos pais a culpa dos nossos problemas na vida adulta.
Ontem uma amiga dizia-me keep your eyes on the horizon. Não num sentido poético da coisa, lamento desiludir, mas simplesmente porque me sentia enjoada na travessia de mar meia turbulenta que então fazíamos. E pensando nisso, talvez seja mesmo esse manter o olhar no horizonte em tempos de turbulência que me tenha feito chegar até aqui. Como diz e bem a sabedoria popular, águas mansas não fazem bons marinheiros.
Voltando da embarcação de ontem ao avião turbulento de onde hoje escrevo, trago poucos arrependimentos. E sinto que sim, que se este avião hoje caísse, sempre fiz o que pude com as condições que me foram dadas. Tenho amado com quantas forças tenho dentro de mim, viajado tanto quanto possível, realizado os sonhos que sonhei, e sim, tenho vivido uma vida feliz e preenchida.
E agora mais feliz ainda, porque o avião chegou a terra são e salvo, e daqui a umas horas apanho outro que me há-de levar de Manila até Bali, para juntar um outro tanto de aventuras a este diário feliz que têm sido estes últimos anos.
E na despedida das Filipinas, faço-o em tagalo: Salamat, o meu agradecimento à vida feito na língua local.

Abraço gigante!
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