quarta-feira, 13 de novembro de 2019



Filipinas. Não é amor à primeira vista, especialmente se houver tempo para explorar alguma das cidades. Mas com o passar dos dias, percebo que cheguei a um país encantado. Há segredos que pedem para ser desvendados - como que assomam numa espécie de murmúrio que só se escuta quando as embarcações desligam os motores e se aproximam das paradisíacas praias desertas que pontuam a paisagem. Um sussurro subtil apenas audível quando os tricycles ficam distantes em terra e só o som da rebentação nos embala sob o céu azul de uma qualquer praia. O silêncio imponente das paisagens montanhosas, vestidas de verdes e azuis que não vemos todos os dias. É este o país que se encontra quando não escolhemos o tour A, B, ou C, mas entramos em embarcações de pescadores que nos mostram o mundo para além dos percursos que alguém predefiniu.

Entrei nesse mundo quando me dei como "cobaia" para uma primeira viagem e acampamento numa ilha deserta, com outras quatro pessoas que conheci nesse dia - uma inglesa, uma bósnia, um canadiano e uma belga - todos nós em longas viagens a solo pela Ásia. Fizemos a viagem mesmo com aviso de tufão, e claro que como era previsível, fomos atingidos sem dó nem piedade por volta das 4h da manhã. Chuva e vento fortíssimos, tendas abaladas pela violência da tempestade, água por todo o lado, e a ameaça constante de uma árvore desabar sobre as nossas cabeças. Não voltámos a pregar olho nessa noite, mas apesar do cansaço e do mau tempo, apreciei o facto de termos voltado a terra ilesos. Não sem antes ter vivido sozinha aquele que foi para mim o ponto alto da viagem. Alan, o pescador e guia que nos acompanhou e com quem empatizei de imediato, convidou-me para visitar a sua casa. Não pensei duas vezes e saltei imediatamente a bordo com ele, íamos buscar peixe para o almoço do grupo. Quando nos aproximávamos da aldeia do Alan, Lady Grace, a nossa cozinheira filipina de serviço, surpreendeu-me com uma das suas (muito) inocentes perguntas: se as casas em Portugal também eram como as que tínhamos diante de nós. Chamar-lhes casas requeria uma generosa dose de imaginação. Eram simples construções, como que barracões construídos em estacas sobre as águas. A mais humilde aldeia piscatória que alguma vez conheci, e a casa do Alan não era exceção. Duas divisões comuns a servirem de sala, entrada e cozinha, uma espécie de quarto para o casal, três filhos e a sogra, e uma tentativa de casa de banho. Tudo muito filipino, sem mobílias à vista, portas tampouco. Um remendo de madeiras e placas de zinco com divisões separadas por pedaços de tecido. E assim viviam as pessoas naquele canto do planeta, na maior das humildades. Mas nunca os vi frustrados com aquilo que para um português comum seria um óbvio cenário de miséria com condições de salubridade bastante duvidosas. Desde as crianças aos idosos, todos me receberam com curiosidade e sorrisos rasgados, mesmo estranhando ali a minha presença tão deslocada. Fiquei por várias vezes desarmada com este bem receber filipino, este constante "morning, 'mam" com que somos brindados diariamente.

São experiências incríveis como esta que podemos esperar viver se sairmos da nossa zona de conforto, dos nossos padrões tão ocidentalizados. Mente e coração abertos são essenciais à viagem, bem como ter presente que grande parte da humanidade não vive com o nível de conforto a que nos habituámos e damos por garantido. E não só aqui, mas sempre que nos aventuramos fora dos percursos habituais. Off the beaten track.

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