Tinha 21 anos acabados de fazer quando a mãe nos deixou - o meu irmão a meses de fazer 18. Nesses anos negros, a ansiedade devorou-me de dentro para fora. Perdi boa parte do cabelo (até hoje nunca recuperado), chegava a beber 5 litros de água por dia pois tinha uma sede que nunca passava, as dores nas costas uma constante, e os pulmões, que nunca conseguia encher de ar. A ansiedade é fodida. À quinta feira já começava o meu pavor pelos fins de semana, tremia de me imaginar sozinha, sem saber o que fazer para preencher o imenso vazio que ela nos tinha deixado. Ansiava por ter pessoas à minha volta e sempre algo planeado, uma angústia permanente. Ficar a sós e em silêncio com o meu luto era doloroso de mais. Uma profunda falta de norte que hoje me parece difícil de acreditar ter conseguido ultrapassar. Mas ultrapassei.
Ter vindo fazer uma viagem desta dimensão sozinha é como que sambar na cara da ansiedade. Aquele beijinho no ombro, estimo bem que te f****. Mas mesmo em viagem, a garganta arde-me e o coração palpita quando antecipo certas coisas. Às vezes antes de mudar para um sítio novo, lá vem o ardor na garganta. Como sempre, passa, mas nem sempre é fácil. São os dormitórios partilhados com pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Por vezes apenas homens e nem sempre sóbrios quando regressam dos bares. Os problemas da barriga, aos quais perdi a conta de tantos que já foram. São as pernas pejadas de meses de mordidas de insetos. São as incompreensíveis casas de banho asiáticas, onde penso sempre "Quando é que vou apanhar a doença X ou Y". É a comida que para andar dentro do orçamento, vai oscilando entre arroz e noodles.
Hoje finalmente tive o dia inteiro a sós, tempo de introspecção e auto-análise. Onde antes temia o silêncio, hoje procuro-o de minha livre iniciativa. E um aniversário grande à porta dá que pensar. É terça feira de carnaval e não estou no Brasil nem em Torres Vedras, como em todos os outros anos. Estou ainda no sítio onde há momentos me sentei para meditar, para me sentir e me acalmar. Não deixo de me surpreender com as coisas boas que a meditação e o yoga me trazem, e com o facto de apesar de nem sempre ter compreendido estas práticas (a aprendizagem é uma constante), nelas ter insistido e trazê-las sempre comigo.
A quem comigo partilhou estes ensinamentos e à vida, que apesar de por vezes turbulenta, é ainda assim maravilhosa, me curvo num imenso e sentido Namastê.

Quando escrevemos desde dentro,sem medo,damo-nos a conhecer duma forma profunda!
ResponderEliminarA vida é realmente por vezes dura e assustadora! Para nos sacudir e despertar, para nos levar mais longe, para nos fazer ver com mais clareza, para nos amaciar as exigências, as impaciências, as intolerâncias,...
E as viagens continuam, fora e dentro, rumo ao nosso centro e a um estado alegre de paz!
Que lindo te ler de novo. Senti fundo esse texto. E bateu forte a memória do meu corpo no meio de um bloco com você. Te amo, amiga.
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