sábado, 18 de abril de 2020

Malabar, Sidney




Passei seis meses consecutivos em viagem. Tive sorte suficiente para parar no meu último destino dois dias antes da loucura se instalar de forma irremediável. Tal como foi sendo hábito, não planeei vir cá parar, e no entanto aqui estou. Aterrei em Sidney no dia 13 de Março, e dois dias depois a quarentena tornou-se obrigatória para todos aqueles que chegassem ao país. Entretanto tudo foi ficando mais deserto - as praias, as cidades, as ruas. Estamos por fim em lockdown obrigatório. Quem for apanhado na rua sem justificação plausível pode ser multado ou preso.

Nos seis meses em que efetivamente viajei, todas as manhãs tinha aqueles segundos de estranheza. Nem sempre sabia imediatamente onde estava, ou com quem viajava nessa altura. O facto de mudar de sítio a cada 3 a 6 dias gera um nó no cérebro, o qual invariavelmente se manifesta nesta confusão matinal à qual nunca conseguia escapar.

Apesar de viver na mesma casa desde que aqui cheguei e não me encontrar a viajar, a confusão matinal persiste. Mas agora as sensações que (já raramente) me afligem ressoam o estado do mundo, e o quão estranho é estarmos todos enfiados em casa a escondermos-nos de um inimigo invisível que não sabemos onde nem quando nos poderá apunhalar pelas costas.

Faço parte daquele grupo de pessoas que desvalorizou a gravidade da situação, admito. Depois percebi que afinal havia mesmo motivos de preocupação. Temo pelos que tenho em casa e cujas condições de saúde os tornam mais vulneráveis. Apesar de tudo, tenho tentado não sucumbir ao medo. Medito, faço yoga, leio bastante, exercito-me diariamente e tento comer da forma mais saudável possível. E até agora esta receita tem funcionado, o meu cérebro continua no lugar.

O inglês é a língua que agora falo instintivamente. Penso em inglês, sonho em inglês, já tudo me sai em inglês. E em inglês pensava noutro dia o tanto de restless que sempre me senti, e o quanto de stillness que tenho vindo a descobrir com renovado prazer, todos os dias. Tive uma sorte desmesurada em ser acolhida numa família que me incentiva no que faço diariamente, que me demonstra gratidão sem meias medidas, que me leva a exceder-me em tudo o que faço. E é assim imbuída desta renovada alma australiana que todos os dias saio de pé descalço à rua e vou nadar, faça frio ou faça sol. À falta de viagens externas, tenho viajado muito dentro de mim, em busca de concretizações maiores sobre quem afinal sou, e para onde quero ir. A intuição apura-se quando o ruído acalma, e os sentidos despertam numa alquimia única, filha da quietude. Do meu infinito desassossego, renasce agora plenitude. Vejo-a no meu rosto quando o lavo de manhã,  sinto-a no meu coração quando me sento e medito. 

A minha viagem pela Ásia foi incrível, superou tudo o que eu podia ter imaginado. Mas culminar estes meses com esta ida ao interior de mim é uma viagem de sentido único da qual não pretendo mais voltar.

Namaste

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