Quando me fiz à estrada em Setembro, a minha vontade de explorar era tão grande que não pensava em mais nada. Só queria fazer acontecer o tão ansiado sonho. Mas com o passar do tempo, vai havendo espaço para pequenas preocupações, sendo uma das mais comuns e meio que herdada das conversas com outros viajantes a do "como é que vai ser o regresso a casa?”. Deambulei algumas vezes por esta questão, e temia que quando chegasse a hora de voltar, sentisse que não tinha feito o suficiente, que ainda não era a altura certa para parar, e ainda havia muito para ver. Bom, sejamos pragmáticos, por muitas voltas que se deêm, vai sempre haver um imenso mundo por explorar. E talvez por temer esse regresso precoce (se é que se pode chamar de precoce ao fim de 10 países em 6 meses), decidi-me por uma última paragem de 3 meses na Austrália. E mais uma vez a minha intuição foi tão certeira nesta vinda para aqui. Dadas as atuais restrições às viagens um pouco por todo o mundo, esta paragem em Sydney deu-me um tremendamente luxuoso tempo para fechar com chave de ouro o mais incrível e surreal período da minha vida.
E também para perceber que há um empoderamento extraordinário em deixar para trás relações pouco profícuas, cortar com o que foram as rotinas durante anos, e ousar saltar para o desconhecido. Muitas vezes me perguntaram Não tens medo? Vais sozinha, a sério? Não te vais aborrecer? A resposta é fácil, medo não tive, sozinha (quase) nunca estive e aborrecimento nunca foi um problema. Até mesmo nos dias estranhos em que nem tudo era óbvio - como aquele em que chorei num Starbucks em Xangai enquanto uma tempestade se abatia sobre a cidade e ali sentada me sentia tão perdida. Ou quando já noite dentro atravessei sozinha a fronteira do Cambodja com o Laos e não tinha dinheiro suficiente para pagar as "taxas extras" (vulgo extorsão) aos funcionários locais, e fui salva por um intrigante alemão parecido com o Bono - chamava-se Mirko, se bem me lembro. Ou o dia em que aterrei em Osaka convencida de que tinha deixado os meus cartões todos em Seul e me convenci que era um fiasco de viajante, a perder coisas logo de início (afinal estavam no fundo da mala, lição aprendida).
Mas uma certeza tenho já consolidada: é tempo de voltar, e não vou com a impressão do que ficou por ver ou por fazer. O meu coração às vezes já vai tropeçando em saudades que até agora mal tinha sentido, como que em me alertando que chegou a hora. Voltar a casa para abraçar quem amo. E que bem que vão saber tantos abraços.

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