Em tempos sonhei com o meu avô, e nesse sonho revi uma foto nossa em que estamos na praia da Foz do Arelho. Eu bebé sentada no colo dele, com um pequeno pedaço de pão à boca. Sempre a adorei, até porque não tenho muitos mais registos fotográficos com ele. Nesse sonho, o meu avô deixou-me uma mensagem clara, mas na altura pouco perceptível: que devia voltar a ser criança outra vez. Na altura não percebi bem o significado daquelas palavras, daquele sonho, daquela imagem em particular. Foram precisos vários meses, uma distância gigante de casa, e umas quantas semanas a saltar de ilha em ilha para por fim perceber o que era afinal tão óbvio.
Nasci alegre, às vezes talvez até tenha sido excessivamente exuberante nessa alegria. Mas as vicissitudes da vida encarregaram-se de me ir roubando essa natural capacidade de rir, de sorrir, de gargalhar. Dei por mim muitas vezes triste, de cara trancada, incapaz de rir ou de fazer sorrir os outros, como antigamente sabia fazer. Tantas vezes me disseram que tinha os olhos tristes, demasiado tristes.
Mas o feedback que tenho recebido não podia ser mais diverso desses tempos agora distantes. Oiço com frequência que os meus olhos irradiam uma luz diferente, nova, pura. Que a minha pele brilha de felicidade - apesar de eu achar que é só o dourado do sol a iludir-vos em meu benefício. Que o meu sorriso está mais sincero do que nunca. Dizia-me a minha amiga Maggie que era bom quando eu fazia animar o grupo, mas que é ainda melhor ver-me genuinamente feliz. E tudo isso é maravilhoso, mas gira apenas à minha volta. A satisfação verdadeira, têm sido as outras mensagens que tenho recebido. As das duas mães com filhos pequenos em casa, ambas de bilhetes comprados, porque as inspirei a saírem da rotina. Outra amiga que me diz tocar aquela música maravilhosa que descobri na Coreia do Sul para o filho adormecer. Desconhecidos que me querem conhecer porque ficaram admirados com a minha ideia louca (e na verdade em nada original) de me despedir para vir viajar. Nunca pensei que esta minha ideia pudesse impactar na vida de outras pessoas, e sinto uma alegria enorme quando penso nisso. Mas tenho conhecido tanta gente que faz exatamente o que eu fiz, que sou apenas mais uma no meio de tantos outros. Não obstante, se esta minha pequena loucura tiver servido para que alguém compre um bilhete de avião para ir a algum lado, para mim terá valido ainda mais a pena.
E é de olhos marejados que me chega esta reflexão, pois sempre me convenci que os meus olhos tinham contornos tristes. E foi preciso viajar até ao outro lado do mundo, fazer esta viagem de 4 dias de barco entre as Flores e as Gili, e escrever-vos debaixo deste céu estrelado para descobrir que não. Afinal, os meus olhos não eram nada tristes, e o meu avô tinha razão - só precisava de voltar a ser criança outra vez, a saber gargalhar sem reservas, sorrir com ligeireza e sentir sem restrições. Sim, os meus olhos brilham da mais pura das felicidades e a minha pele parece concordar. Obrigada avô pela tua mensagem que demorei tanto tempo a perceber. Resgatei de novo a criança que fui um dia, e não podia estar mais feliz.

Não tenho bilhete comprado, mas está lá perto. Depois conto. é bom ver-te assim, que continues assim nessa descoberta positiva de ti e do mundo.
ResponderEliminar💙💙💙💙 linda, gosto muito de ti
ResponderEliminarFelicidade within your bones que é tão contagiante. You made my day <3
ResponderEliminar🙏🙏🙏
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