quinta-feira, 26 de dezembro de 2019




Primeiras horas em Ho Chi Minh City? O verdadeiro caos. Mais de duas horas para passar os serviços de imigração, tão ou mais cansativo que o voo de quase cinco horas que me trouxe até cá. Vencida a burocracia, hora de apanhar uma scooter rumo ao destino. A minha integridade física é ameaçada vezes sem conta nesta cidade tão conhecida pelo seu (péssimo) trânsito mundialmente famoso. Ninguém obedece a quaisquer regras, é comum conduzir motas em contra mão, nos passeios, no meio dos transeuntes - literalmente vale tudo. Sempre que atravesso uma estrada no meio desta bizarra anarquia, lembro-me do famoso be like water, my friend do Bruce Lee. É preciso fluir. Aqui, todos parecemos peixes neste estranho mar de gente, quase como se não houvesse espaço para todos.

Para os meus primeiros 4 dias na cidade, escolhi um couchsurfing em detrimento de mais hosteis, com as suas repetitivas playlists de música comercial que já não suporto. Mas estava longe de imaginar que ia parar a uma comuna. Já não visitava um sítio destes desde 2014, quando estive numa passagem de ano numa casa de ocupas, ao miradouro da Senhora do Monte, no meu saudoso bairro da Graça. Para quem o conceito possa ser estranho, não passa de um conjunto de pessoas que se juntam num espaço, por vezes cedido, mas muitas vezes ilegal, e fazem dele a sua casa. Quando cheguei, à minha espera tinha vários russos, alguns ingleses, um brasileiro, uma indonésia e um peculiar e inteligente marinheiro de Singapura. Trocámos as habituais cervejas por chás, e madrugada dentro trocámos também impressões sobre economia, história, política, sociedade. Apesar do lugar algo caótico - não esquecer que se trata de uma comuna - senti que tinha tomado a decisão acertada em manter-me longe de hosteis desta vez. Lá acabei por perceber que estou numa residência de professores de inglês que ao mesmo tempo funciona como uma bike shop. São voluntários a residir na casa de uma família vietnamita, ensinam inglês às crianças no piso intermédio e gerem a sua própria oficina de motas no rés do chão, as quais muitas vezes constroem do zero, com as próprias mãos. Max, o brasileiro, diz-me ter chegado há 4 meses atrás com o intuito de passar uma semana. Mas nunca mais foi embora.

Sinto uma estranha familiaridade no meio destes desconhecidos. Todos eles são estranhos e aventureiros à sua maneira, e eu gosto de me imaginar e sentir assim também, estranha e aventureira.
E adoro dessa sensação.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Indonésia 360



Kuta, Seminyak, Flores, Komodo, Lombok, Gili, Nusa Penida, Ubud, Uluwatu, Canggu.

Que jornada intensa que foi este mês de Indonésia! Quando saí de Portugal, foi provavelmente o país sobre o qual recebi mais conselhos - especialmente sobre a tão famosa Bali, que sempre me soou a terra prometida por habitar os sonhos de tanta gente em terras lusas. Felizmente, há mais Indonésia para além de Bali, e é difícil tecer uma opinião estruturada e isenta sobre o país. Sobre Bali, muitos me disseram que era a minha cara, que quando cá chegasse não ia querer ir embora, que era melhor deixá-la para o final. Talvez o meu eu de há uns meses atrás tivesse concordado. Mas dei por mim a apreciar mais a tranquilidade das estradas nas Flores, a inóspita Komodo, o dolce fare niente exigido por Nusa Penida, e até o silêncio meditativo da minha primeira passagem por um Ashram em Ubud.

A diversidade cultural, de costumes e de paisagens muda quase drasticamente conforme a ilha onde estejamos. Lembrarei sempre a Indonésia como o país onde passei quatro dias a bordo de um barco, várias horas ao largo de um vulcão ativo, onde aprofundei a minha prática de meditação, onde viajei com pessoas que me desafiaram, onde conheci o dragão de Komodo, e onde vi finais de tarde onde quase podia jurar que os barcos pendiam no ar, de tão inexistente que era a linha que normalmente divide o céu e o mar. Conheci brasileiros que me relembraram o porquê de amar tanto o Brasil, holandesas que me fizeram ter saudades minhas quando ainda não tinha 20 anos, e percebi que precisava de voltar a viajar sozinha, já que passei todo o tempo rodeada de outros viajantes. E senti falta de me ouvir a mim mesma, só a mim e às minhas deambulações. Engraçado recordar que no início temi esta premente solidão que antevia numa viagem só minha. E agora dou por mim a desejar mais momentos meus, de olhar para dentro e ouvir com atenção o que é que afinal quero da estrada que escolho percorrer dia após dia.

A Indonésia veste-se sem dúvida de uma espiritualidade especial, especialmente se nos predispomos a ouvir para além do imenso apelo comercial que nos é feito em cada esquina - seja para táxis, roupas, massagens ou tours. Para tudo há um preço, e centenas de vozes que rezam a mesma oferta numa ladainha sem fim. Mas nos lugares onde esse rumor não chega, há espaço para mais, para abrir os braços com calma e respirar de peito aberto este país tão peculiar.





quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Dharma


Cheguei ao Anand Ashram Ubud num dia chuvoso, coisa rara até então na minha viagem. Efeito placebo ou não, sinto uma energia especial neste lugar, e sinto que me quero emergir nela tanto quanto as fronteiras da minha mente permitirem. Li sobre o Dharma mal aqui cheguei - fazer a coisa certa na altura certa. E no meu quarto, a mensagem não podia ser mais apropriada à ocasião: self-transformation is only possible if you recognize what are the things in you that need to be transformed, and then work on it (palavras de Swami Anand Krishna, o guru responsável pelo Ashram). Totalmente adequado. E porquê? Uma hora antes de aqui chegar, a minha companheira de viagem que decidiu juntar-se a mim neste retiro de yoga confrontou-me. Que o meu desapego e dificuldade em definir planos concretos para os dias depois do retiro a incomodavam, que não se sentia confortável com a minha autonomia para ela pouco normal. Na verdade, não me disse nada que eu já não soubesse. Nem sempre tive uma rede de apoio em alturas críticas. Quando mais precisei, nem sempre houve alguém por perto - e isso inevitavelmente deixa marcas. Portanto, sempre fui confrontada com o facto de ser demasiado autónoma na minha maneira de estar. Fosse por chefes no meu trabalho, pelas minhas amigas, ou em relações passadas. Não uma, não duas, mas várias vezes ao longo da minha vida adulta. Sei que sou assim e sei que não é fácil mudar. Mas não é impossível. E acredito que saber a raiz do problema já pode ser um excelente ponto de partida para o resolver. Foram muitas as vezes em que dependi apenas e só de mim mesma. Vezes de mais. E sinto que isso fez crescer em mim uma força bruta que por vezes soa estranha a quem teve percursos menos exigentes. Passo por rude, arrogante, indiferente. Quando na verdade estou a seguir velhos mecanismos de sobrevivência que me fizeram chegar até aqui. 
Não acho contudo que isso me sirva de desculpa para continuar a agir dessa forma. Sou grata por ter sido confrontada ao longo dos anos pela minha liberdade gritante aos olhos dos outros, e sei agora que esse é um dos aspetos sobre os quais me vou debruçar nos próximos dias que aqui vou passar. 

E a quem teve a coragem de me enfrentar para me apontar o dedo e reclamar a minha atenção, só posso agradecer, pois sem dificuldades não há evolução. E ninguém quer ser o mesmo para sempre, verdade?


Namaste



sábado, 30 de novembro de 2019

Do avô e céus estrelados



Em tempos sonhei com o meu avô, e nesse sonho revi uma foto nossa em que estamos na praia da Foz do Arelho. Eu bebé sentada no colo dele, com um pequeno pedaço de pão à boca. Sempre a adorei, até porque não tenho muitos mais registos fotográficos com ele. Nesse sonho, o meu avô deixou-me uma mensagem clara, mas na altura pouco perceptível: que devia voltar a ser criança outra vez. Na altura não percebi bem o significado daquelas palavras, daquele sonho, daquela imagem em particular. Foram precisos vários meses, uma distância gigante de casa, e umas quantas semanas a saltar de ilha em ilha para por fim perceber o que era afinal tão óbvio. 

Nasci alegre, às vezes talvez até tenha sido excessivamente exuberante nessa alegria. Mas as vicissitudes da vida encarregaram-se de me ir roubando essa natural capacidade de rir, de sorrir, de gargalhar. Dei por mim muitas vezes triste, de cara trancada, incapaz de rir ou de fazer sorrir os outros, como antigamente sabia fazer. Tantas vezes me disseram que tinha os olhos tristes, demasiado tristes.

Mas o feedback que tenho recebido não podia ser mais diverso desses tempos agora distantes. Oiço com frequência que os meus olhos irradiam uma luz diferente, nova, pura. Que a minha pele brilha de felicidade - apesar de eu achar que é só o dourado do sol a iludir-vos em meu benefício. Que o meu sorriso está mais sincero do que nunca. Dizia-me a minha amiga Maggie que era bom quando eu fazia animar o grupo, mas que é ainda melhor ver-me genuinamente feliz. E tudo isso é maravilhoso, mas gira apenas à minha volta. A satisfação verdadeira, têm sido as outras mensagens que tenho recebido. As das duas mães com filhos pequenos em casa, ambas de bilhetes comprados, porque as inspirei a saírem da rotina. Outra amiga que me diz tocar aquela música maravilhosa que descobri na Coreia do Sul para o filho adormecer. Desconhecidos que me querem conhecer porque ficaram admirados com a minha ideia louca (e na verdade em nada original) de me despedir para vir viajar. Nunca pensei que esta minha ideia pudesse impactar na vida de outras pessoas, e sinto uma alegria enorme quando penso nisso. Mas tenho conhecido tanta gente que faz exatamente o que eu fiz, que sou apenas mais uma no meio de tantos outros. Não obstante, se esta minha pequena loucura tiver servido para que alguém compre um bilhete de avião para ir a algum lado, para mim terá valido ainda mais a pena. 

E é de olhos marejados que me chega esta reflexão, pois sempre me convenci que os meus olhos tinham contornos tristes. E foi preciso viajar até ao outro lado do mundo, fazer esta viagem de 4 dias de barco entre as Flores e as Gili, e escrever-vos debaixo deste céu estrelado para descobrir que não. Afinal, os meus olhos não eram nada tristes, e o meu avô tinha razão - só precisava de voltar a ser criança outra vez, a saber gargalhar sem reservas, sorrir com ligeireza e sentir sem restrições. Sim, os meus olhos brilham da mais pura das felicidades e a minha pele parece concordar. Obrigada avô pela tua mensagem que demorei tanto tempo a perceber. Resgatei de novo a criança que fui um dia, e não podia estar mais feliz.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019



Hoje foi dia de turbulência. Tem sido raro o voo em que não acontecem aqueles dois a três segundos de aparente queda livre (que parecem uma eternidade) e que nos fazem pensar na morte. Os que viajam acompanhados dão imediatamente as mãos, os outros agarram-se às cadeiras, ouvem-se gritos de aflição seguidos de suspiros de alívio quando tudo acaba. Dei por mim em diversas destas ocasiões a retrospetivar o meu próprio percurso. Se este avião hoje se desfizer em mil pedaços e me levar com ele, fui feliz? Fiz tudo o que queria? Valeu a pena? Podia ter feito tudo de forma diferente? Invariavelmente, sinto uma bizarra tranquilidade sempre que tenho o mais ténue vislumbre da morte. Penso que fiz mais do que à partida estaria traçado no meu destino. Nasci numa pequena aldeia no campo, o meu avô negociava madeiras e afins, a minha avó vendia peixe antes de se casarem.  Quando apareci eu vários anos mais tarde, a humildade continuava a ser um denominador comum. Não vivíamos com muito, mas acho que também nunca me faltou nada. Na linha direta de descendência dos meus avós, fui a primeira a ir para a universidade. A minha mãe e tios não foram além do ensino básico. Não se usava tal coisa na altura, e ia-se "ajudar" para a fazenda. Apesar de não ter sido privada de estudos, também não me livrava de lá ir sempre que fosse precisa, e desde pequena lá ajudava na semeia ou na apanha da batata, e a colher fruta se calhasse. Ganhei calo. A minha mãe engravidou com apenas 18 anos e o meu pai nunca fez parte de nada, a não ser do meu imaginário assombrado pela sua ausência. Nunca me contaram ao certo o porquê de ter sido "abandonada", mas quando tirei a carta com 18 anos fui imediatamente atrás dele, atrás de respostas. Perguntei-me muita vezes o que havia de errado comigo. O que podia fazer um bebé de colo de tão errado, que levasse um dos progenitores a simplesmente ignorar toda a sua existência. Este abandono atormentou-me na infância e adolescência, e deixou traços na minha personalidade que pelo menos hoje consigo identificar e entender. Já o Freud atribuía aos nossos pais a culpa dos nossos problemas na vida adulta.

Ontem uma amiga dizia-me keep your eyes on the horizon. Não num sentido poético da coisa, lamento desiludir, mas simplesmente porque me sentia enjoada na travessia de mar meia turbulenta que então fazíamos. E pensando nisso, talvez seja mesmo esse manter o olhar no horizonte em tempos de turbulência que me tenha feito chegar até aqui. Como diz e bem a sabedoria popular, águas mansas não fazem bons marinheiros.

Voltando da embarcação de ontem ao avião turbulento de onde hoje escrevo, trago poucos arrependimentos. E sinto que sim, que se este avião hoje caísse, sempre fiz o que pude com as condições que me foram dadas. Tenho amado com quantas forças tenho dentro de mim, viajado tanto quanto possível, realizado os sonhos que sonhei, e sim, tenho vivido uma vida feliz e preenchida.

E agora mais feliz ainda, porque o avião chegou a terra são e salvo, e daqui a umas horas apanho outro que me há-de levar de Manila até Bali, para juntar um outro tanto de aventuras a este diário feliz que têm sido estes últimos anos.

E na despedida das Filipinas, faço-o em tagalo: Salamat, o meu agradecimento à vida feito na língua local.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019



Filipinas. Não é amor à primeira vista, especialmente se houver tempo para explorar alguma das cidades. Mas com o passar dos dias, percebo que cheguei a um país encantado. Há segredos que pedem para ser desvendados - como que assomam numa espécie de murmúrio que só se escuta quando as embarcações desligam os motores e se aproximam das paradisíacas praias desertas que pontuam a paisagem. Um sussurro subtil apenas audível quando os tricycles ficam distantes em terra e só o som da rebentação nos embala sob o céu azul de uma qualquer praia. O silêncio imponente das paisagens montanhosas, vestidas de verdes e azuis que não vemos todos os dias. É este o país que se encontra quando não escolhemos o tour A, B, ou C, mas entramos em embarcações de pescadores que nos mostram o mundo para além dos percursos que alguém predefiniu.

Entrei nesse mundo quando me dei como "cobaia" para uma primeira viagem e acampamento numa ilha deserta, com outras quatro pessoas que conheci nesse dia - uma inglesa, uma bósnia, um canadiano e uma belga - todos nós em longas viagens a solo pela Ásia. Fizemos a viagem mesmo com aviso de tufão, e claro que como era previsível, fomos atingidos sem dó nem piedade por volta das 4h da manhã. Chuva e vento fortíssimos, tendas abaladas pela violência da tempestade, água por todo o lado, e a ameaça constante de uma árvore desabar sobre as nossas cabeças. Não voltámos a pregar olho nessa noite, mas apesar do cansaço e do mau tempo, apreciei o facto de termos voltado a terra ilesos. Não sem antes ter vivido sozinha aquele que foi para mim o ponto alto da viagem. Alan, o pescador e guia que nos acompanhou e com quem empatizei de imediato, convidou-me para visitar a sua casa. Não pensei duas vezes e saltei imediatamente a bordo com ele, íamos buscar peixe para o almoço do grupo. Quando nos aproximávamos da aldeia do Alan, Lady Grace, a nossa cozinheira filipina de serviço, surpreendeu-me com uma das suas (muito) inocentes perguntas: se as casas em Portugal também eram como as que tínhamos diante de nós. Chamar-lhes casas requeria uma generosa dose de imaginação. Eram simples construções, como que barracões construídos em estacas sobre as águas. A mais humilde aldeia piscatória que alguma vez conheci, e a casa do Alan não era exceção. Duas divisões comuns a servirem de sala, entrada e cozinha, uma espécie de quarto para o casal, três filhos e a sogra, e uma tentativa de casa de banho. Tudo muito filipino, sem mobílias à vista, portas tampouco. Um remendo de madeiras e placas de zinco com divisões separadas por pedaços de tecido. E assim viviam as pessoas naquele canto do planeta, na maior das humildades. Mas nunca os vi frustrados com aquilo que para um português comum seria um óbvio cenário de miséria com condições de salubridade bastante duvidosas. Desde as crianças aos idosos, todos me receberam com curiosidade e sorrisos rasgados, mesmo estranhando ali a minha presença tão deslocada. Fiquei por várias vezes desarmada com este bem receber filipino, este constante "morning, 'mam" com que somos brindados diariamente.

São experiências incríveis como esta que podemos esperar viver se sairmos da nossa zona de conforto, dos nossos padrões tão ocidentalizados. Mente e coração abertos são essenciais à viagem, bem como ter presente que grande parte da humanidade não vive com o nível de conforto a que nos habituámos e damos por garantido. E não só aqui, mas sempre que nos aventuramos fora dos percursos habituais. Off the beaten track.

sábado, 2 de novembro de 2019


No doctors here. You work through the pain.

Assim dito a seco, foi estranho de ouvir. Vinha de uma viagem de quase três horas esborrachada por dois filipinos que dormiam apoiados um no outro, sendo eu o recosto final daquelas duas almas. Eu e o meu ombro lesionado e apertado contra o vidro do autocarro. Depois dos dias de pausa que lhe dei no Japão, a minha mochila de seus míseros 40 litros parecia mais pesada do que o habitual. Saí da casa japonesa ao meio dia, só aterrei numa cama filipina passava já da uma da manhã. E o meu ombro vinha por isso ofendido do constante veste e despe da mochila. Ou disso, ou de alguma somatização de ansiedade que o meu corpo tenha decidido materializar na dor aguda que me afligiu durante estes dias.

Apesar de não ter equacionado ir a um médico por tão pouco, a minha anfitriã Anna fez questão que eu soubesse da sua inexistência. Em Moalboal, fui alojada por um casal de couchsurfers, ele filipino, ela russa. Couchsurfing é uma comunidade internacional de viajantes onde podemos oferecer um lugar em nossa casa/sofá ou ser recebidos dessa forma, gratuitamente. E é para mim a melhor forma de estar com pessoas que vivem nos sítios que visito, potenciando o intercâmbio cultural que tanto aprecio. E estes meus anfitriões foram mais uma confirmação do quanto esta comunidade tem de positivo. Fiz o meu batismo de mergulho com o Fritz, e tive a sorte de nadar no meio de milhares de sardinhas, ver tartarugas gigantes, famílias de peixe palhaço e estrelas do mar de cores que nem sabia existirem. Nascida e criada que fui ao pé do mar, senti que voltava a casa naqueles momentos únicos de contemplação que o oceano proporciona.

Passámos ainda boas horas à conversa e cozinhei para eles uma ou outra vez - para mim, retribuir hospitalidade com culinária é protocolo internacional básico de boas maneiras e é algo que adoro fazer. E com eles soube particularmente bem, pois fizeram questão de que soubesse que apesar de constantemente receberem couchsurfers e hóspedes através do Airbnb, eu tinha sido a primeira pessoa a cozinhar para eles. Ao que parece, o Fritz é exigente com a comida, mas lambuzou os dedos de satisfação com a bolonhesa que lhes preparei. Disse que estava ao nível de restaurante. Missão cumprida com sucesso.


No último dia que passei com eles, fizeram questão de me convidar a jantar um prato filipino e a Anna levou-me a fazer snorkeling mais uma vez. E apesar do meu ombro me ter doído na maior parte do tempo em que estive em Moalboal, no último dia nadei sem qualquer tipo de dor ou limitação. Recordei com prazer as palavras da Anna com um timing perfeito e o seu quê de premonitório, pois foi exatamente nesse último dia que senti o meu ombro finalmente recuperado, depois de tanto Tiger Balm que lhe apliquei.

Work through the pain. Always.





quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O dia em que ela apareceu em Moalboal



Isto de viajar sozinha tem muito que se lhe diga. E logo eu, que apesar de adorar as minhas horas de silêncio e quietude, gosto mesmo é de me ver rodeada de amigos e jogar conversa fora. Não gosto nada de planear, chego aos sítios e vejo como me sinto. E o que acontece muitas das vezes é que chego e fico meio à toa, como que feita refém da minha própria aversão ao planeamento. Não sei para onde me vire nem o que faça. E apesar das mil e uma maneiras de poder conhecer e estar com outras pessoas, por vezes privilegio o poder abandonar-me sozinha aos meus pensamentos, sem as conversas que se vão repetindo ao fim de algum tempo. 

Há quanto tempo andas a viajar? Ah, sério?, que giro. No meu país é assim, na minha língua é assado. Pois é, quando conhecer pessoas se torna parte da rotina, é desafiante contornar os tópicos do costume, as perguntas de estrada que todos os viajantes acabam por vestir e despir como se da bagagem fizessem parte.


Hoje depois de vários quilómetros percorridos numa scooter estrada fora, sentei-me pela primeira vez num areal e tentei ler um livro italiano de viagens que me tem dado uma luta do caraças - já não lia italiano há tanto tempo. Os filipinos inundavam o areal inteiro com as suas gargalhadas vindas do mar, num feliz desapego dentro de água enquanto o céu ameaça a todo o momento desabar em chuva. É época de chuvas e ao invés de céu solarengo, há uma enorme parede cinzenta que vai deixando cair umas gotas aqui e ali.

E nesse momento, senti-me sozinha. 

Não que esteja triste, não que haja algo de errado comigo. Simplesmente habituei-me a que por vezes isto vai acontecer, e vou sentir-me simplesmente assim, s-o-z-i-n-h-a. E enquanto matutava para mim mesma no que isto significa, o que ao mesmo tempo não precisa de ser nem é sinónimo de tristeza, oiço ao longe os acordes de uma música que bem conheço. Não a ouvia há muito tempo, mas foi a música que escolhi para tocar na despedida da minha mãe. Da minha querida mãe. E logo pousei o meu livro e me deixei ficar, sentido a lágrima de emoção que misturei à chuva, e a mão da minha mãe, que imaginei enxugar-me o rosto, em me dizendo que ali estava comigo. Que viajava comigo, que tomava conta de mim. 




E que bem que me soube a solidão daqueles minutos, pois que se os tivesse passado a conversar, não teria dado pela música, nem pela breve passagem da memória da minha mãe, como que me dizendo que nunca estou de verdade sozinha.

Muito amor, minha mãe, e muitas saudades tuas hoje e sempre. Esta viagem é minha e tua.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Cebu


Até ontem, tinha andado pela Ásia modernizada. China, Coreia, Japão e suas grandes cidades ou pequenos e organizados centros urbanos. Mas ontem cheguei à Ásia a sério, aquela cujo calor esbofeteia e onde a pobreza nos revolve as entranhas de tão gritante. Aterrei em Cebu, cidade onde por norma se tem um pé no avião e o outro no autocarro ou ferry seguinte. Poucos são os que param para se deixarem engolir nesta amálgama de gentes simples e edifícios decrépitos. Na primeira hora que passei na rua recusei inúmeras ofertas de "ajuda", táxis, transportes, ou simplesmente homens que queriam interagir comigo. E este constante recusar de ajudas iria pautar o resto do meu dia até voltar à casa de hóspedes onde fiquei nessa noite. Chocante sim foi o contato que tive com as primeiras crianças que se meteram comigo. Não lhes daria mais que 4 a 5 anos, mas é difícil dizer pois eram crianças de rua, ou de pais muito pobres, e visivelmente subnutridas. De cócoras e pés descalços, esgravatavam qualquer coisa no chão, e mal me viram estenderam de imediato as pequenas mãos em jeito de prece, pedindo ajuda. Como estes, vi muitos, muitos outros. Crianças, adultos, idosos. Inclusive, ainda jantei com uma dessas meninas de rua, mas para ela ficará uma reflexão escrita noutro dia em que o calor não me tolde o discernimento como agora.

À medida que percorri a cidade, senti que estranhavam a minha presença (talvez demasiado branca), mas foi à noite que percebi o quão sozinha estava nesta cidade enquanto "turista". Com uma amiga espanhola que fiz nessa manhã, decidimos noite dentro ir visitar a Cruz de Magalhães, deixada no séc. XVI pelos nossos respectivos antecessores portugueses e espanhóis. E ali bem perto, o muito sui generis Carbon Market esperava por nós. Diria que fomos talvez a atração principal dessa noite, tal foi a atenção dispensada às duas branquelas que por ali de aventuravam. Ao contrário do que sugeriria a sujidade das ruas e a negritude dos edifícios ao nosso redor, o ar dominava-o antes um refrescante cheiro a frutas e legumes espalhados rua fora. Nunca antes me tinha sentido tão diferente, tão observada. Nessa noite fotografei um local que imediatamente me adicionou no Facebook, onde inclusive me viria a escrever, e passo a citar You mam your deperent of other american, your colour is nature. Passando por americana, não sei se se referiu à naturalidade com que ficámos na brincadeira com ele, ou à palidez que já trago comigo das grandes cidades. 


Ainda ouvimos mais uns quantos "Kiss Kiss" até chegarmos ao Forte de São Pedro, seriam já umas 9h da noite. A inexistência de turistas por estas bandas é de tal ordem que o segurança do forte se prontificou imediatamente a fazer-nos uma pequena visita guiada, mesmo estando o edifício fechado já há várias horas. Acho que ele gostou ainda mais do inusitado daquele momento do que nós, tal foi a quantidade de fotos que a seguir nos pediu que tirássemos com ele.

Para uma cidade ontem passei pouco mais de 30 horas, Cebu marcou-me de várias formas e sei que ainda aqui vou voltar - tanto fisicamente, como por escrito. Agora é hora de desfrutar das próximas 3 horas neste autocarro sobrelotado e sem ar condicionado de onde escrevo, pois o calor aperta e o pensamento já custa a fluir. E outras paisagens  mais verdejantes esperam por mim.



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

I wish I could



Gostava de simplesmente poder pegar no carro e ir às compras num mercado em Damasco, ou comer cerejas no Líbano, ou ir a Meca e comprar um perfume.


As palavras são do Hallel, com quem partilhei casa nestes últimos dias de voluntariado no Japão, a propósito das limitações impostas pelo seu passaporte israelita. Preocupações que nós portugueses, europeus e ocidentais no geral, por norma não temos, posta a facilidade em entrar na maioria dos países. É com visível comoção que me transmite estes inatingíveis desejos, dado que já há coisa de uma hora que a nossa conversa versava sobre o sensível tema do  conflito israelo-árabe. Um assunto pelo qual sempre nutri uma empática atenção, pois que tem tanto de inusitado como de irresolúvel. E infelizmente, a opinião do Hallel é de que provavelmente não estará resolvido no seu tempo útil de vida. 

Não consigo deixar de sentir a dimensão quase poética do sítio e da tarefa que executamos: nessa manhã, foi-nos pedido que deixássemos a descoberto as raízes de duas árvores decepadas, e aí nos encontrávamos nós, munidos de pás e boa vontade, a escavar como se nada mais importasse no mundo. Da mesma maneira que não pude deixar de lhe admirar a abnegação com que me disse ainda assim sentir-se um privilegiado: apesar de tudo, não passava pelas dificuldades que pautam os dias dos seus amigos sírios.


O Hallel é como eu em muitas coisas: apesar dos dez anos que nos separam, já tem o hábito de tentar ver sempre o lado positivo das situações. No caso dele, nasceu num dos mais controversos pontos do planeta, mas ainda assim tem presente que podia ser pior. Pode sempre ser pior - tudo depende da perspectiva com que nos dispomos a olhar as coisas que a vida nos trás. 

Há precisamente um mês atrás dirigi-me à China para uma experiência meio conturbada que me fez valorizar tudo o que deixei em Portugal. E é curioso como o Hallel conseguiu ter em mim o mesmo efeito que um país inteiro: o apreciar a sorte que tive de nascer onde nasci, apesar de todas as dificuldades, dos contratempos e das adversidades. Afinal de contas, até aqui sobrevivemos a todos os nossos piores dias, desde que nascemos até ao exato segundo em que escrevo estas palavras.


E disso há um mundo inteiro de valor a retirar. Basta querer.



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Slow Life Japan

Mergulhamos os três no Mar do Japão em genuíno desprezo pela nortada e pelas temperaturas outonais desta tarde premonitória de novembros. Eu, a francesa Mona, o israelita Hallel - que por sinal, mergulha no mar pela primeira vez. A água é tépida para mim, habituada que estou às correntes frias do Atlântico, mas fresca para o Hallel, frequentador assíduo desse caldo quente que é o Mar Morto. E sim, é verdade, até no Japão a nortada me persegue. O Oeste sempre presente. Mas mais do que o vento, e mais do que este clima tão parecido ao nosso, sinto-me imediatamente perto de casa mal os meus pés sentem a rebentação. De alguma forma, esta imensidão de água que literalmente nos liga faz-me sentir mais próxima às minhas raízes portuguesas, quase a 11.000 kms de distância - o mais longe que alguma vez estive de casa. Como se do outro lado do globo pudesse sentir os pés daqueles que amo tocarem esta mesma água, bafejo doce de saudade e de amor neste simples gesto de "tocar o mar" - já dizia o meu amigo Jerôme. Je vais toucher la mer.


Depois de algumas posições de yoga, sento-me na posição de lótus, e não me lembro de alguma vez me ter sentido tão confortável assim sentada nesta postura nem sempre fácil. E assim me deixo ficar, por tempo indeterminado, por mais tempo do que me lembro me ter deixado assim sentada, sentindo o vento, os salpicos de mar, estes pequenos laivos de plenitude. A casa onde vivo agora apresenta-se logo à  entrada: "Slow life Japan". E eu, ansiosa e apressada que sou, nunca pensei que seria capaz de vestir tão bem esta camisola de tempos retalhados em pequenas e delicodoces  doses.


Esta manhã protegemos a plantação de morangos com plástico, colhemos as flores que afetam a plantação de chá, e ainda acabámos de aplicar cimento num dos muros que se está a construir em torno à propriedade.
Fiz pão pela primeira vez, um doce de caqui, (fruta cuja existência desconhecia), e tenho-me reinventando em cozinhados com alimentos e temperos para mim totalmente novos - as compras para a casa são feitas por terceiros, e é preciso transformar os alimentos em refeições com alguma criatividade - muitos deles nunca os tinha visto nem sei bem do que se tratam. Satisfaz-me tanto conseguir dar-lhes a volta, mas agrada-me ainda mais apreciar o agrado com que estes meus novos amigos acolhem os meus cozinhados - que modéstia à parte, me dizem ser deliciosos.

E não é que afinal sabe (tão) bem viver devagar.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

"Don't let China get under your skin"


Tenho pela frente 19 horas de comboio, mais do que o necessário para suprimir a distância que separa a charmosa Shangai da misteriosa Guilin. Sim, poderia ter optado por menos horas de viagem, mas não queria deixar de viver a experiência de dormir a bordo de um comboio e desfrutar da respetiva alimentação à base de noodles preparados com água quente disponível em todas as carruagens. Na verdade, a água quente é omnipresente, há sempre alguém a comer noodles em algum lugar. E já diz a velha máxima, se não podes vencê-los, junta-te a eles. Foi o que fiz por diversas vezes, ao ponto de já comer noodles até ao pequeno almoço.

Partilho a cabine com pessoas que estranham a minha presença, mas talvez ainda mais o facto de ter um livro nas mãos. Um simples livro. Não me lembro de ter visto ninguém com um por estas bandas. Parecem uma memória menor e distante, vítimas inevitáveis desse vício doentio que são os telemóveis. 


Aproxima-se o final da tarde, e é impossível não reparar que tanto a alvorada como o ocaso se vestem quase sempre de uma penumbra como não me lembro de ter visto noutros países. Apologista de metáforas que sou desde que lhes aprendi o sentido, não consigo evitar a associação óbvia. É como se essa penumbra - que mais não será do que apenas e só o smog que dilacera este país de dentro para fora - de alguma forma retratasse o manto invisível com que a orientação comunista reveste este país de norte a sul, de este a oeste. 


Os assuntos proibidos, as gentes como que coibidas de interagirem com estrangeiros, uma ingenuidade quase infantil que sinto ser transversal à população inteira. Pergunto-me várias vezes se a barreira será meramente linguística - dado que poucos falam inglês - ou se se deverá essencialmente a orientações profundamente diferentes daquelas a que estamos habituados no mundo ocidental.


Nunca como na China valorizei tanto a educação que o ensino português me proporcionou. A minha liberdade de pensamento, de discurso, de ação. E também a minha liberdade religiosa, apesar dessa já nada me importar. Sempre os tive como dados adquiridos, mas há algo de bastante castrador em não saber muito bem como fazer uma simples pesquisa no Google, porque este pura e simplesmente não está disponível na complexa web chinesa.
Basta rumar a Oriente para as nossas referências se desfazerem por terra, e no meu caso particular, apreciar mais uma vez aquilo que sei ter em casa à minha espera - e essa valorização é dos maiores prazeres que tiro das viagens, sem qualquer sombra de dúvida. 
É por isso que é tão bom sairmos das nossas bolhas, mesmo que dê trabalho, que seja desafiante, às vezes até doloroso. Sim, a China tratou-me de tal forma que cheguei a questionar as minhas escolhas de olhos marejados. Mas sobrevivi-lhe, pois também é dessa exposição que me desafia que vim à procura. Se para isso não fosse, mais valia ter ficado sentada à secretária a pensar nas próximas férias.







Não sei bem situar quando é que esta viagem se começou a desenhar dentro de mim. Desde pequena, sempre vivi numa urgência de partir, um desejo de explorar que nunca senti satisfeito nas viagens de curta duração que fui fazendo desde que comecei a juntar dinheiro para as fazer - tinha apenas 14 anos. Nunca quis roupas ou CD's ou quaisquer outras pequenas futilidades normais nessa idade. Apenas e só aquele bilhete mágico de avião que me levava para longe, para sítios novos e paisagens com as quais só podia sonhar.

Desta vez, segui uma regra básica para quem quer fazer dos sonhos algo mais do a insónia em que por vezes se transformam, mas desconhece qual o primeiro passo: sem ter qualquer plano delineado, comecei por dizer a toda a gente que me ia despedir e ia para a Ásia só com um bilhete de ida. No início, acho que pouca gente acreditou em mim. E aqui me confesso, eu própria desconfiei de que seria capaz de levar o meu (não) plano avante. Mas a verdade é que esta estratégia básica de verbalizar a minha intenção a meio mundo resultou: o anúncio estava feito e não podia voltar atrás. E tudo o que fiz foi levar as vacinas obrigatórias, comprar um bilhete rumo à China, e encontrar quem me desse casa nesses primeiros dias. Não preparei rigorosamente mais nada.

E não ter um plano implica que tenho vários meses pela frente, o desejo de visitar cerca de 17 países, mas nenhum trajeto delineado. Quem escolhe os meus próximos passos por mim é o Skyscanner. Quase como naquele clichê de quem gira um daqueles globos retro e viaja para o país onde calhar a tocar com a ponta do dedo.
Nunca fui adepta de organização excessiva. Tenho uma maneira espontânea e às vezes meio tonta, como diriam algumas amigas minhas, de fazer acontecer as coisas. E a verdade é que bem ou mal, com mais ou menos sobressaltos, elas vão acontecendo. Mas no que toca a escolher um percurso para esta viagem, percebo agora ao fim de 23 dias de estrada que nunca seria para mim ter um trajeto fechado e rigoroso. Percebo agora que esta minha fluidez é apenas e só a feliz materialização de todas as vezes em que acordei nos últimos 11 anos, e tudo o que desejava era correr para o aeroporto da Portela e comprar um bilhete para o próximo avião que cruzasse o céu de Lisboa. Claro que esta ideia teria muito pouco de romântico se o voo fosse para Madrid ou para o Funchal. Mas não é isso que importa. A verdade é que foram mesmo muitas as vezes em que esse era o desejo maior que em mim morava. E agora posso de peito feito e orgulho transbordante dizer que essa se tornou a minha vida - pelo menos para os próximos tempos. Agora sim, posso finalmente acordar todos os dias e pedir ao Skyscanner que tenha a gentileza de escolher um destino simpático para mim. Literalmente todos os dias. Até agora não me tratou mal. Depois da China, levou-me à Coreia do Sul e por enquanto estou pelo Japão. Até quando? Não faço ideia.

Há vidas melhores que esta? Com certeza que sim, e piores também, não duvido. Mas esta é a minha, a que incubei durante anos, e que agora abraço todos os dias com compromisso e entrega. Porque mesmo sem caminho traçado, é ao improviso que me entrego. 11 anos de escritórios, fatos e gravatas e horários definidos já foram demais, bem demais do que o desejável. 

E só posso desejar que assim dure a minha liberdade.