segunda-feira, 18 de maio de 2020

Plena mente



Quando me fiz à estrada em Setembro, a  minha vontade de explorar era tão grande que não pensava em mais nada. Só queria fazer acontecer o tão ansiado sonho. Mas com o passar do tempo, vai havendo espaço para pequenas preocupações, sendo uma das mais comuns e meio que herdada das conversas com outros viajantes a do "como é que vai ser o regresso a casa?”. Deambulei algumas vezes por esta questão, e temia que quando chegasse a hora de voltar, sentisse que não tinha feito o suficiente, que ainda não era a altura certa para parar, e ainda havia muito para ver. Bom, sejamos pragmáticos, por muitas voltas que se deêm, vai sempre haver um imenso mundo por explorar. E talvez por temer esse regresso precoce (se é que se pode chamar de precoce ao fim de 10 países em 6 meses), decidi-me por uma última paragem de 3 meses na Austrália. E mais uma vez a minha intuição foi tão certeira nesta vinda para aqui. Dadas as atuais restrições às viagens um pouco por todo o mundo, esta paragem em Sydney deu-me um tremendamente luxuoso tempo para fechar com chave de ouro o mais incrível e surreal período da minha vida.

E também para perceber que há um empoderamento extraordinário em deixar para trás relações pouco profícuas, cortar com o que foram as rotinas durante anos, e ousar saltar para o desconhecido. Muitas vezes me perguntaram Não tens medo? Vais sozinha, a sério? Não te vais aborrecer? A resposta é fácil, medo não tive, sozinha (quase) nunca estive e aborrecimento nunca foi um problema. Até mesmo nos dias estranhos em que nem tudo era óbvio - como aquele em que chorei num Starbucks em Xangai enquanto uma tempestade se abatia sobre a cidade e ali sentada me sentia tão perdida. Ou quando já noite dentro atravessei sozinha a fronteira do Cambodja com o Laos e não tinha dinheiro suficiente para pagar as "taxas extras" (vulgo extorsão) aos funcionários locais, e fui salva por um intrigante alemão parecido com o Bono - chamava-se Mirko, se bem me lembro. Ou o dia em que aterrei em Osaka convencida de que tinha deixado os meus cartões todos em Seul e me convenci que era um fiasco de viajante, a perder coisas logo de início (afinal estavam no fundo da mala, lição aprendida).

Mas uma certeza tenho já consolidada: é tempo de voltar, e não vou com a impressão do que ficou por ver ou por fazer. O meu coração às vezes já vai tropeçando em saudades que até agora mal tinha sentido, como que em me alertando que chegou a hora. Voltar a casa para abraçar quem amo. E que bem que vão saber tantos abraços.


sábado, 18 de abril de 2020

Malabar, Sidney




Passei seis meses consecutivos em viagem. Tive sorte suficiente para parar no meu último destino dois dias antes da loucura se instalar de forma irremediável. Tal como foi sendo hábito, não planeei vir cá parar, e no entanto aqui estou. Aterrei em Sidney no dia 13 de Março, e dois dias depois a quarentena tornou-se obrigatória para todos aqueles que chegassem ao país. Entretanto tudo foi ficando mais deserto - as praias, as cidades, as ruas. Estamos por fim em lockdown obrigatório. Quem for apanhado na rua sem justificação plausível pode ser multado ou preso.

Nos seis meses em que efetivamente viajei, todas as manhãs tinha aqueles segundos de estranheza. Nem sempre sabia imediatamente onde estava, ou com quem viajava nessa altura. O facto de mudar de sítio a cada 3 a 6 dias gera um nó no cérebro, o qual invariavelmente se manifesta nesta confusão matinal à qual nunca conseguia escapar.

Apesar de viver na mesma casa desde que aqui cheguei e não me encontrar a viajar, a confusão matinal persiste. Mas agora as sensações que (já raramente) me afligem ressoam o estado do mundo, e o quão estranho é estarmos todos enfiados em casa a escondermos-nos de um inimigo invisível que não sabemos onde nem quando nos poderá apunhalar pelas costas.

Faço parte daquele grupo de pessoas que desvalorizou a gravidade da situação, admito. Depois percebi que afinal havia mesmo motivos de preocupação. Temo pelos que tenho em casa e cujas condições de saúde os tornam mais vulneráveis. Apesar de tudo, tenho tentado não sucumbir ao medo. Medito, faço yoga, leio bastante, exercito-me diariamente e tento comer da forma mais saudável possível. E até agora esta receita tem funcionado, o meu cérebro continua no lugar.

O inglês é a língua que agora falo instintivamente. Penso em inglês, sonho em inglês, já tudo me sai em inglês. E em inglês pensava noutro dia o tanto de restless que sempre me senti, e o quanto de stillness que tenho vindo a descobrir com renovado prazer, todos os dias. Tive uma sorte desmesurada em ser acolhida numa família que me incentiva no que faço diariamente, que me demonstra gratidão sem meias medidas, que me leva a exceder-me em tudo o que faço. E é assim imbuída desta renovada alma australiana que todos os dias saio de pé descalço à rua e vou nadar, faça frio ou faça sol. À falta de viagens externas, tenho viajado muito dentro de mim, em busca de concretizações maiores sobre quem afinal sou, e para onde quero ir. A intuição apura-se quando o ruído acalma, e os sentidos despertam numa alquimia única, filha da quietude. Do meu infinito desassossego, renasce agora plenitude. Vejo-a no meu rosto quando o lavo de manhã,  sinto-a no meu coração quando me sento e medito. 

A minha viagem pela Ásia foi incrível, superou tudo o que eu podia ter imaginado. Mas culminar estes meses com esta ida ao interior de mim é uma viagem de sentido único da qual não pretendo mais voltar.

Namaste

sábado, 7 de março de 2020


És tão confiante que pensei que fosses lésbica.

Tão simpático elogio foi-me feito pela Mirja, outra voluntária que conheci nos meus dias em Luang Prabang. Encontrámos-nos algumas vezes, mas só na minha última noite a Mirja decidiu partilhar comigo a sua história. E ela estava certa.

Hoje em dia a falta de confiança não é de todo um problema que me aflija. Mas nem sempre foi assim. Influenciada pela cultura de consumo e tal como milhões de outras miúdas, nem sempre estive satisfeita com o meu corpo, pois estava convencida que as minhas curvas não se coadunavam com os cânones de beleza impostos pelas Vogues desta vida. Na escola, também passei alguns episódios de pseudo bullying, mas a bem dizer da verdade, nada assim tão grave que me tenha feito mossa. Era gozada por a minha mãe sofrer de obesidade mórbida. Porque a minha roupa era comprada na feira e não nalguma loja de marca. Porque o meu cabelo era encrespado e cheio de volume quando o escovava. E senti vergonha quando percebi que de todas as casas de amigos/as que conheci na altura, a minha era a que menos se parecia com um "lar". A faculdade também não foi propriamente próspera. Lembro-me que no primeiro ano, ia para Lisboa com 20€ no bolso (sim, vin-te-eu-ros). E tinha que os fazer durar até sexta-feira quando voltasse a casa. Comer, pagar fotocópias, e beber uns copos de vez em quando. Afinal de contas, é a faculdade e beber faz parte da etiqueta. Tinha pouco ou nenhum dinheiro e tinha sempre medo de não ser aceite porque não tinha condições de acompanhar todos os eventos sociais.

Anos mais tarde, as minhas inseguranças  materializaram-se numa fome emocional que me fez chegar a pesar 85kg. Não cabia em quase nenhumas das minhas calças, e encontrar algumas que me servissem nas lojas habituais era um verdadeiro pesadelo. Odiava o que via ao espelho e chorei várias vezes cheia de auto comiseração. Hoje olho para trás e não me reconheço nessa pessoa frágil e insegura que fui durante tanto tempo.

Não sei bem como, até porque não houve nenhuma epifania, mas a dada altura tudo mudou. Comecei a alimentar-me de forma responsável, perdi peso e passei a adorar o que vejo ao espelho. E não (breaking news everyone!) não tenho o peso ideal. Mas não podia estar menos preocupada com isso. Adoro-me tal e qual como sou, e isso já ninguém me tira.

Quando estive no Boom em 2018, fiquei surpreendida e fascinada com a percentagem elevada de pessoas que não usavam qualquer roupa durante o festival. E isso inclui bikinis, calções de banho, o que seja. Nu integral, puro e duro. Pessoalmente, não retiro nenhum prazer de andar toda nua assim no meio de toda a gente e por isso não o fiz. Mas numa dada manhã decidi abrir uma exceção, e fui com o meu primo a uma piscina de lama cavada no chão da herdade. Como não queria estragar o bikini, lá me despi e mergulhei no bendito banho de lama. Desconhecidos que partilhavam aquele momento comigo imediatamente me cobriram de lama, enquanto um deles tocava uma qualquer música de Bob Marley numa guitarra. E porra, poucas vezes me senti tão livre e espontânea na vida como naquele momento em que nua me deixei cobrir de lama. E apesar de já vir sentindo que algo vinha mudando na minha percepção de mim mesma, nesse dia algo se solidificou dentro de mim, um pouco como a lama que enrijecia enquanto me sentei ao sol. Ver aquelas pessoas todas nuas e a não darem a mínima se são gordas ou magras, mais altas ou mais baixas, who cares, foi sem dúvida um momento de transição na forma como me vejo.

Felizmente as minhas prioridades são outras e o tempo é curto para o desperdiçar em ideias infelizes sobre se o meu corpo preenche os requisitos de fulano ou de sicrano. Sou como sou, e gosto hoje de mim mais do que nunca.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Kuala Lumpur, ou todas as religiões do mundo


A ignorância é uma benção, diz a sabedoria popular, com o tanto de ironia e presunção que cabe no facto de uma se pronunciar sobre a outra.

De facto, pensar demais pode tornar-se angustiante, especialmente quando de devaneios metafísicos se trata - como explicar a origem do universo ou entender afinal que entidade é esta que chamamos de Deus pelo mundo fora. Foi precisamente isso que fiz esta semana com o Hussein, o meu anfitrião de couchsurfing, expatriado do Yemen em Kuala Lumpur.

Eu educada à sombra do conservadorismo católico português. Ele muçulmano de gema. Não podíamos ter tido educações mais díspares, e ainda assim concordamos em tantos pontos sensíveis: ambos somos profundamente descrentes nas religiões organizadas, ambos reprovamos o conveniente e constante papel que tiveram ao longo dos séculos em manter a carneirada na ordem, e ambos abominamos o tanto de conflitos que estas patrocinaram na história das civilizações. E aliás ainda o fazem um pouco por todo o mundo, como é sobejamente sabido.

Apesar de reconhecer os bons princípios que me foram incutidos na igreja, privilegio ainda mais o facto de a minha sede de conhecimento e constante necessidade de tudo questionar me terem feito alinhar com a pragmática afirmação de Nietzsche: Deus está morto. Só lamento ter levado tantos anos a descortinar as perniciosidades impressas nos grandes dogmas da igreja católica: a culpa sempre presente, um pai que perdoa as nossas faltas em linha com a constante necessidade de redenção, e a passadeira vermelha a caminho do inferno se não pedirmos perdão, não nos arrependermos, e não rezarmos o acto de contrição três vezes antes de irmos dormir.

Tipo, a sério?...

Um destes dias ouvia a última entrevista em vida de Tiziano Terzani, famoso correspondente de guerra italiano e homem de uma sabedoria invejável, onde constatava a mais pura das evidências: a religião clama que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. E Terzani do alto da sua sapiência, alerta para o contrário: foi sim o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança. Com muito do que temos de bom, mas nele replicando igualmente muito do que temos de mau.

Hoje enquanto deambulo por Kuala Lumpur, vejo-me rodeada de hijabs e burkas. Sei que parte destas mulheres o fazem de livre e espontânea vontade, pelas suas crenças e tradições, mas pergunto-me se lá no fundo questionam os fundamentalismos descabidos e sexistas inerentes às religiões em que foram educadas. As temperaturas hoje estão perto dos 40 graus, e estou de calções e camisola de alças. Sou observada tanto por homens como por mulheres, como se a minha pele exposta constituísse algum atentado à moral e aos bons costumes. Logo eu, que acima de tudo sou profundamente apologista das liberdades e do livre arbítrio.

Como dizia o poeta e bem, há metafísica bastante em não pensar em nada, e por isso dou por concluída a controversa reflexão do dia.

Amén.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020


Tinha 21 anos acabados de fazer quando a  mãe nos deixou - o meu irmão a meses de fazer 18. Nesses anos negros, a ansiedade devorou-me de dentro para fora. Perdi boa parte do cabelo (até hoje nunca recuperado), chegava a beber 5 litros de água por dia pois tinha uma sede que nunca passava, as dores nas costas uma constante, e os pulmões, que nunca conseguia encher de ar. A ansiedade é fodida. À quinta feira já começava o meu pavor pelos fins de semana, tremia de me imaginar sozinha, sem saber o que fazer para preencher o imenso vazio que ela nos tinha deixado. Ansiava por ter pessoas à minha volta e sempre algo planeado, uma angústia permanente. Ficar a sós e em silêncio com o meu luto era doloroso de mais. Uma profunda falta de norte que hoje me parece difícil de acreditar ter conseguido ultrapassar. Mas ultrapassei.

Ter vindo fazer uma viagem desta dimensão sozinha é como que sambar na cara da ansiedade. Aquele beijinho no ombro, estimo bem que te f****. Mas mesmo em viagem, a garganta arde-me e o coração palpita quando antecipo certas coisas. Às vezes antes de mudar para um sítio novo, lá vem o ardor na garganta. Como sempre, passa, mas nem sempre é fácil. São os dormitórios partilhados com pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Por vezes apenas homens e nem sempre sóbrios quando regressam dos bares. Os problemas da barriga, aos quais perdi a conta de tantos que já foram. São as pernas pejadas de meses de mordidas de insetos. São as incompreensíveis casas de banho asiáticas, onde penso sempre "Quando é que vou apanhar a doença X ou Y". É a comida que para andar dentro do orçamento, vai oscilando entre arroz e noodles. 

Hoje finalmente tive o dia inteiro a sós, tempo de introspecção e auto-análise. Onde antes temia o silêncio, hoje procuro-o de minha livre iniciativa. E um aniversário grande à porta dá que pensar. É terça feira de carnaval e não estou no Brasil nem em Torres Vedras, como em todos os outros anos. Estou ainda no sítio onde há momentos me sentei para meditar, para me sentir e me acalmar. Não deixo de me surpreender com as coisas boas que a meditação e o yoga me trazem, e com o facto de apesar de nem sempre ter compreendido estas práticas (a aprendizagem é uma constante), nelas ter insistido e trazê-las sempre comigo.

A quem comigo partilhou estes ensinamentos e à vida, que apesar de por vezes turbulenta, é ainda assim maravilhosa, me curvo num imenso e sentido Namastê.

sábado, 22 de fevereiro de 2020


Falámos ao telefone noutro dia, e contava-lhe o sítio onde estou a viver agora. A minha interlocutora ficou manifestamente chocada com as condições em que me encontro. Para os nossos padrões ocidentais, não se pode sequer remotamente chamar de casa. Existem umas paredes de pé onde vive a família que me acolhe, um espécie de casa de banho onde tomamos banho com baldes de água fria, a cozinha é pouco mais do que um lume no chão que se acende todos os dias e duas prateleiras acossadas a uma parede. E o meu quarto? Bom, o meu quarto (que tenho a sorte de partilhar com uma artista francesa que adoro) é uma pequena cabana dependurada sobre o rio Mekong, as paredes são apenas lençóis e o chão é feito de bambu. As noites são frias e o isolamento acústico é - como se pode facilmente imaginar - inexistente. Não existe área de refeições. Sentamos-nos todos no chão, fazemos bolinhas de sticky rice com as mãos e partilhamos sopas feitas com ingredientes que raramente sei o que são. Limito-me a apreciar o que partilham comigo, pois foi a isso que me propus ao vir aqui. E isso estende-se claro está à simplicidade do que é a vida destas pessoas.

Lembro-me muitas vezes dos meus avós quando vejo o lume a arder, das histórias que me contavam em que também era assim que cozinhavam no antigamente. Penso em todos os (muitos) confortos que tenho em casa e no significado que tem privar-me de todas as comodidades que dou por garantidas. Vistas bem as coisas, não me posso queixar. Não me falta rigorosamente nada.

Nestes dias em Luang Prabang dou por mim com excesso de tempo livre para análises existenciais. Penso no que almejo para o futuro e a dada altura senti alguma angústia quanto à minha inexistência de novos sonhos. Pensei que não tinha mais nenhum sonho guardado por atingir - este de viajar era o maior de todos, e como está a ser tão maravilhoso concretizá-lo! Mas rapidamente me lembrei que me despedi, não tenho trabalho e preciso de sustento. Mas não é de um trabalho que preciso, e sim de uma paixão. Dias inteiros em escritórios que cumprem apenas e só o papel de me pagar as contas, os impostos, os seguros? Já dei para esse peditório.

Tornou-se por isso claro e evidente de mais que do que preciso é de uma paixão, de preferência daquelas que pagam a água, a luz e o gás.

Paixões, alguém com recomendações?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Been there, Don Det




Hoje enquanto atravessava o Mekong numa das muitas pequenas embarcações que abundam rio fora, tive que repetir para comigo mesma: isto é real, está mesmo a acontecer. O cenário era tão idílico que precisei de parar por uns instantes para o digerir. Andando sempre de um lado para o outro, quase todos os dias se vêm coisas incríveis. E às vezes esquecemos-nos de parar para apreciar o que nos rodeia. Don Det é um desses sítios que nos sugam, onde vamos ficando e quase nos esquecemos que a dada altura será necessário seguir viagem.

Apesar de ser o único país do sudeste asiático que não tem fronteira marítima, o Laos é ainda assim casa de um lugar mágico chamado 4.000 Islands. Ilhas incontáveis, povoações que de tão autênticas e intocadas quase parecem pequenas tribos, cascatas de fazer suster a respiração. Para além da beleza mística deste sítio, Don Det é simultaneamente um lugar de extremos. É perfeito para nos entregarmos ao dolce fare niente com os hippies que deambulam pela ilha, rebolando de esplanada em esplanada em busca da próxima iguaria gastronómica ou de mais um dos inacreditáveis pôr do sol que dão nome a este lugar. Mas Don Det também é vocacionado para as atividades outdoor. Aqui passei várias horas de kayak rio abaixo, outras tantas de bicicleta de uma ilha para a outra, desci rápidos sem saber se tinha coragem (e aptidão) para o fazer, e escalei sítios inóspitos em busca de algumas das muitas cascatas que por aqui existem.

Vi crianças brincarem despreocupadas nas ilhotas que decoram o rio, enquanto as respetivas mães colhiam bivalves nas margens do mesmo. E miúdos com não mais do que dez anos de idade tirarem peixe do rio como se de uma brincadeira se tratasse. Ver a vida local acontecer desta maneira é para mim das melhores coisas de viajar. Sem desprimor de tudo o que se pode fazer em viagem, o mais puro dos prazeres reside nesta simplicidade de observar a vida a acontecer num ritmo que não é o meu, numa realidade incrivelmente distante da minha.

O Laos não se podia ter apresentado com um melhor postal do que este, uma espécie de ginásio, mas na natureza. Moída e cansada me confesso, mas ansiosa por quantos mais estrangeirismos couberem na minha já pequena carteira: hyking, cycling, kayaking, rafting and so on. Não me levem a mal o abandono momentâneo do português, mas é que ao fim de uns meses, até os meus sonhos já são em inglês. Go figure!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020


Mal cheguei ainda de noite à poeirenta Banlung, Ratanakiri, senti que estava finalmente no caminho certo. Estradas de um vermelho vivo ainda por alcatroar, pontilhadas de humildes construções de madeira e crianças sorridentes. A minha última paragem no norte do Cambodja, antes de atravessar a fronteira para o vizinho Laos. Apesar de estar de volta à estrada sem companheiros de viagem, a sede pelo desconhecido encheu-me de confiança e vontade de me embrenhar na vida desta povoação. Eram seis da manhã quando sozinha me aventurei pelo mercado local. Numa área predominantemente rural, pude apreciar de perto e com caráter de exclusividade (não havia um único viajante na zona àquela hora) o  desenrolar das trocas comerciais. Vindos das aldeias circundantes desta pequena vila na província, os agricultores vendiam as suas frutas, legumes e carnes. Um deleite de cores e cheiros, talvez capaz de ofender narizes mais sensíveis. A sensação é a de estar perante um livro aberto cuja história pede para ser ouvida, mas não há narrador. Absorvo eu toda a narrativa com os meus próprios sentidos, o livro desenrola-se em pura realidade.

Esperei até as 8h da manhã para alugar uma mota, e por fim lá percorri os 5kms que me separavam da casa onde passei os restantes dias. Não podia imaginar que seria das minhas experiências favoritas até agora. Fui recebida em casa do Vuthy como se fosse um membro da família de visita. Fiz as refeições com eles, levei os miúdos à escola na mota, ajudei a trabalhar no terreno da família, inclusive fiz duas novas tatuagens com o mesmo tatuador do Vuthy. À noite jogávamos às cartas ou ficávamos só à conversa, consoante ditasse o cansaço nesse dia. Fiquei deveras impressionada com a autonomia dos miúdos. Com apenas 5 e 9 anos, estes pequenos faziam de tudo sem lhes ser pedido ou tampouco ordenado: lavavam os dentes, faziam os trabalhos de casa, vestiam-se sozinhos para ir para a escola, comiam os vegetais das refeições sem espernear. Nunca os vi fazer uma única birra nos dias que com eles passei.

Despedi-me do Cambodja e desta família com alguma nostalgia. Fui recebida de braços abertos por onde fui passando e sinto que era capaz de ficar os próximos anos a explorar cada recanto deste país, de tanto que me conquistou.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020




O Cambodja  tem uma das mais jovens populações do mundo. Não é frequente encontrar idosos pelas ruas, rasto do genocídio perpetrado por Pol Pot e pelo seu Khmer Rouge nos anos 70. Em apenas 3 anos, 1 em cada 4 habitantes do país foi assassinado. E com métodos atrozes, onde o uso de balas era considerado um desperdício de meios. O genocídio foi levado a cabo à base de machadadas, trabalhos forçados que conduziam à morte por exaustão, espancamentos com bambu, e torturas inimagináveis que incluíam a ingestão de fezes. A comida era de tal forma escassa que chegava a ser possível contar os grãos de arroz nas malgas. 

A dignidade humana reduzida a pó. E tudo porque uma das grandes máximas do regime advogava que era melhor matar um inocente por engano, do que deixar escapar um inimigo. 

Fui a Phnom Penh de propósito para visitar dois dos lugares que marcam esta história quase impossível de acreditar de tão terrível, por eles passou o maior número de vítimas do regime. A prisão de Tuol Sleng, e os Killing Fields, onde morreram cerca de 17.000 pessoas. Neste último, há uma árvore em particular que nos abala todos os sentidos - veio a concluir-se ser aquela onde apenas as crianças eram espancadas. Sim, as crianças. Não escapava ninguém. 

Não há como ficar indiferente. As visitas são conduzidas com um guia áudio, e o silêncio é magistral. A narrativa que se escuta enquanto decorre a visita foi concebida com um tacto irrepreensível, e um apelo constante a que se divulgue o que aqui se passou. Para memória futura, para que a humanidade não volte a cometer os mesmos erros do passado. 

Saí de Phnom Penh com um aperto grande no peito. Vi várias pessoas lavadas em lágrimas em ambos os sítios. É difícil de imaginar o que estas pessoas terão sentido quando se viram despojadas de todos e quaisquer bens pessoais, forçadas a caminhar quilómetros sem fim pelo país fora, forçadas a trabalhar 14 horas por dia sob temperaturas tórridas, separadas da família e de tudo o que lhes era familiar. Dói pensar nisto, dói pensar que ainda há toda uma geração de pessoas órfãs e traumatizadas pelo infame Khmer Rouge. 

Que a memória deste terror não se apague, pois só assim podemos almejar - ainda que remotamente -  a que não se repita.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020





Silêncio. O silêncio das ruas foi a primeira coisa que estranhei no Cambodja quando aterrei em Siem Reap. Ao contrário do que acontece em quase todos os países por onde passei, aqui as pessoas não apitam constantemente. Apitar enquanto se conduz acho que passou a ser inerente à condução por estes lados, tão natural como travar ou acelerar. Faz parte. E a poluição sonora, uma constante. 

Mas não aqui. Aqui reina um civismo que não se encontra noutros lugares.

Os preços estão ligeiramente acima do vizinho Vietnam devido ao uso do dólar americano. Já me habituei a ter duas moedas na carteira, o Riel cambodiano e o dólar americano, mas no início é no mínimo confuso. Tirando a questão dos preços que obviamente não me fascinou, o Cambodja tem sido até agora dos países mais apaixonantes que visitei. Cada lugar tem história, natureza ou algum encanto natural que me faz sentir vontade de explorar ainda mais. A imponência dos templos em Angkor Wat, o delicodoce ritmo das ilhas de Koh Rong e Sanloem, Kampot entregue a mergulhos no rio e subidas às montanhas, Phnom Penh e a fatídica história do genocídio, e a intocada zona rural de Ratanakiri. As ilhas foram em 4 meses o primeiro lugar onde constantemente adiei a minha partida. Não queria sair de lá. As praias de sonho, a vibe hippie, todos os dias o incrível nascer do sol mesmo à frente da minha tenda. Acampar na praia é das melhores coisas desta vida e poder fazê-lo num lugar tão incrível como este é um privilégio, devo reconhecer. 

Não há como me cansar desta vida.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020


Vietnam. Provavelmente fazemos a imediata associação à palavra guerra quando pensamos no país. Um conflito que durou tantos anos e que apesar de tudo não foi assim há tanto tempo quanto isso. Conheço poucos países que tenham combatido o invasor com tanta resiliência, presença de espírito, e um ânimo combativo impossível de quebrar. Muitos dos danos da guerra vivem ainda nas rugas dos mais velhos. Em cada esquina das grandes cidades, em cada simples casa no campo. Não é preciso prestar muita atenção para perceber o quanto de luta pautou estas vidas. Saí deste país com uma admiração extrema pela luta com que o unificaram e de os ver envergar com tanto orgulho o resultado positivo da sua tenacidade indefensável. 

É hoje um país que cresce hoje a olhos vistos, muito graças ao capital chinês. O caos das cidades em constante desenvolvimento contrasta com a inevitável melancolia que se respira em viajando pelos canpos e montanhas do interior. As ilhas recortadas de azul e verde, e as réstias de sol de um verão que teima em não acabar. 

O país oferece um leque tão vasto de opções que é impossível percorrer o tanto que vale a pena visitar. Mas saí de lá com a certeza de que vou voltar para explorar o Norte do país de uma ponta à outra, plano que tive que adiar devido à fratura que não me deixa conduzir motas. 

Cảm ơn bạn, Vietnam!